Pintava com tinta a óleo e tinha o hábito de fazer uma paisagem por dia. Retratava o rio Paraguai como uma sonata de rangidos de barcos, onde borrifos de tintas eram convertidos em bancos de areia sonoros, nuvens errantes e aves que piavam arias. Naquela manhã havia fragmentos do inverno no ar e ele pintou, mimou-o de cores frias, um ovo, grande e desconhecido que dormia sobre as areias e restos de plantas. Mimi levou o ovo para casa.
O vento faz flutuar suas mangas manchadas de tintas, que esvoaçam ao remar a pequena embarcação de madeira. Segue por uma alameda bordada de barcos rústicos e, ao fim, o porto onde ele mora sozinho. Sua casa é uma draga abandonada e ancorada na beira do rio, com ferrugens em tom safira amarela, cortinas de teias de aranhas e um jardim de camalotes. Ambígua criatura, suscetível, tinha ectopia de alma e ninguém sabia se era um homem ou uma mulher. Mimi vendia quadros no coreto da praça em Corumbá e bebia cervejas bolivianas com ovos coloridos.
Relincham tristemente os mastros e um pálido azul paira no céu; as águas da superfície enrrugam calmamente e um perfume de peixes fritos vem embalsamar o ocaso daquela manhã encantada na beira do rio Paraguai. Mimi e seu coração de moço bebem cervejas bolivianas, incessantemente. Luz e sombras sobre seu corpo seminu, que cantarola e dança com o copo de cerveja trocando de mão. Ele cozinha ovos de galinhas para o almoço, inclusive o grande ovo encontrado e que também foi pincelado por ele numa tela de algodão.
Os barcos, xavecos e casas flutuantes bailam sobre as águas calmas, que nessa hora da tarde cintilam o esplendor de um azul em chamas, que sobe como um muro sobre o porto e a cidade. Mimi caminha dançando para o segundo andar da draga, ferros enferrujados retorcidos em céu aberto onde guarda cavaletes, tintas e apetrechos da sua arte e varais. Sobre a mesa de madeira manchada de tintas secas, ele tira as cascas dos ovos e continua a beber cervejas com sal. Aquele ovo grande também foi cozido em fogo brando por meia hora, mas parecia estar vivo no meio do prato. Mimi cede atenção para as enigmáticas e contínuas batidas que vêm de dentro do ovo – como se alguém batesse numa porta fechada -, algo vivo querendo sair.
Com a ponta da faca Mimi faz um furo na casca do ovo deixando escapar um sopro de vapor. É quando o ovo se craquela em inúmeros pedaços, revelando uma ave grande, desconhecida e quase morta pela quentura. Sem penas, bico amarelado, tinha a pele rubra e respiração ofegante. A tarde recende a peixes vivos e há um profundo transparente no céu de agosto. Passam plantas errantes de flores brancas. São ninhos do puro esplendor que carregam coisas vãs, que só o rio sabe, são perdidas, vão para o mar e não voltam mais. Mimi treme ante a visão daquele conto, um milagre, um enigma da vida. Um ovo que chegou de algum lugar do oceano Pacífico, arrastado por plantas e agora uma ave que seria sua eterna companheira.
O albatroz-viajeiro cresceu e suas penas brancas eram como pinceladas longas. Um fio azulado, quase preto, saía dos cantos dos olhos e terminava no pescoço. Tinha uma envergadura acima dos três metros. Voava rente aos mastros e telhados do casario do porto, aprendeu a bailar no espaço e aderiu ao exicio dos humanos. Junto de Mimi degustava cerveja com lambari-do-rabo-vermelho. E por concordância e fé de alguns moradores, o albatroz foi nomeado de Lourenço – por ter sobrevivido ao fogo. Foi assim que Mimi e Lourenço escolheram viver, cronometrando tudo a uma perfeição relativa de um bater de asas, de modo a não perder os cortejos, não perder a mão das pinceladas de cores quentes em dias frios, a não perder o gosto da cerveja boliviana e os velórios que ainda estariam por vir.
E foi numa tarde fria, quinze anos depois. Depois de mil litros de cervejas, incontáveis peixes e tubos de tintas. Depois de mil noites insones, imersas em puro esplendor, um festival de coisas sem sentido e enigmática felicidade, que Mimi morreu como o cair de uma pétala malsonante. Lourenço não era humano, mas sentia o deserto e o silêncio no colóquio da noite e das águas do rio Paraguai, sem a voz de Mimi. E quando o musgo cobriu o túmulo de seu companheiro, já tinha se passado vinte anos. E, no porto de Corumbá, ainda se ouvia o brado do bater das asas de Lourenço por eternas noites.
