domingo, 11 de setembro de 2011

Existência e suavidade - conto

 
  O dia chegava ao fim. As poucas nuvens no céu refletiam um amarelo triste e transfigurador da noite. Licerre chegou à beira do rio com seus apetrechos de pesca no horário de sempre. E, como todos os dias, sentou-se pelo barranco, tirou os sapatos e mergulhou os pés dentro da água fria. Acomodado, acendeu um cigarro de palha, atirou um anzol no meio do rio e esperou. Ao manar das horas, os bugios ficam em silêncio, mas ainda paira uma confusão de ruídos e cores translúcidas sobre as águas que murmuram em pequenos vórtices, espalhando luzes por todos os lados. Licerre acendeu outro cigarro de palha - a fumaça dança sobre as águas junto às sombras que, como uma ilusão, funde seus sentidos. Ele ouve a vegetação, crescendo junto com crepusculários rumores, e a água, fluído misterioso, equação matemática e sem resposta para o homem, que jorra em seu crépido usual. A linha de pesca desliza, corre em ângulos retos, fazendo barulho, zunido, como uma nota musical avisando que um peixe fora fisgado.

- Hoje é o meu dia. Opa, deixei meu cigarro cair, disse Licerre enquanto retirava os pés da água e, com grande força, puxou um peixe para fora do rio. Era um peixe enorme e, por alguns segundos, ele se contorceu brilhante e cheio de reflexos, deixando exalar um cheiro característico das criaturas aquáticas.

Licerre colocou o peixe no cesto de samburá ao seu lado. Retornou os pés para dentro do rio e mais uma vez jogou o anzol na água.

- Fico espantado e até escabreado com tanto enigma neste mundo. Que substância é esta que perambula sem cor ou sem forma, e cria e recria seres maravilhosos iguais a você? Licerre falou com o peixe, enquanto acendia o último cigarro de palha que guardara preso na orelha.

- Você é um homem? perguntou o peixe com voz pequena e abafada.

- Eu sou um homem! Uma criatura nascida em fluido, igual a você. Inclusive, os nossos sonhos se formam num lago de substâncias líquidas, disse Licerre, sem alterar a voz, e como se fosse normal conversar com um peixe.

- Então, eu sou um peixe, como você me chama. Pra que sirvo? O grande peixe tem dificuldade para respirar. Suas guelras pulsam incessantemente e tem a voz muito fraca.

- Você é um peixe, sim! Um ser maravilhoso, belo e somente a natureza é capaz de produzir algo tão extraordinário e sem explicação. Não saberia responder sobre sua serventia. Os homens sabem coisas porque são dotados de sentidos, mas também não sabemos porque existimos. Você está falando igual a um humano! E como isso pode acontecer? O homem fica admirado, olhando o peixe se contorcer, enquanto fala.

- Eu não sei porque estou falando como um homem. Estou esquecendo tudo e não consigo nem lembrar como era embaixo dessas águas. Explique melhor o que é um sentido? – fala o peixe, compassadamente.

Com as duas mãos feito concha, Licerre apanhou água fria e jogou sobre o corpo do peixe.

- Posso devolver você para o rio, mas, antes, tentarei explicar sobre os sentidos.

Licerre pega o peixe com as duas mãos, levanta na altura da sua cabeça e mostra o rio, a água que segue em silêncio desbordando o chão – mostra-lhe o céu, as alturas e as luzes distantes. - - Tudo isso existe! Eu sei disso porque tenho meios através dos quais percebo e reconheço o mundo, o nosso mundo. E você possui alguns desses sentidos, como, por exemplo, reconhecer o ambiente, a água e retirar dela tudo o que você precisa para viver.

- E pra que viver, se você vai me devorar e sempre vão me devorar?

- Não farei isso! Vou devolvê-lo para seu lugar no rio. Você jamais compreenderia como funcionam os sentidos de criaturas como nós. Temos algo a mais, somos dotados de entendimento. A inteligência do homem fica aqui, na cabeça, num lugar chamado cérebro. Neste lugar é que nasceram o entendimento, a razão e a civilização.

- Inteligência, civilização e razão! Como vocês homens sabem sobre tudo isso? pergunta o peixe, angustiado.

- Não sabemos muitas coisas, mas sabemos mais que um peixe. Sabemos sobre nosso mundo e nosso universo baseados em ecos que observamos e analisamos. Aprendemos sobre leis naturais que governam e, em parte, como estas leis funcionam graças às coisas para as quais demos nomes, como a matemática, a física e a ciência. Olhe para cima e veja quantas luzes! São mundos, milhares, incontáveis possibilidades de vidas e charadas sem respostas. Na tentativa de obter algumas respostas para tal realidade é que criamos a filosofia e nos perdemos em oceanos de fluídos, inclusive o medo. E logo concluímos que até as águas morrerão; eu também morrerei um dia - e para sempre.

- Eu nunca senti isso que sinto agora. Por favor, não me deixe nestas águas sem luzes, tenho medo de ser devorado por outras criaturas, tenho medo, muito medo! E o que é oceano?  pergunta o peixe, bem baixinho.

- Não posso deixar você morrer fora do seu mundo. Oceano é feito desse mesmo fluído enigmático que nos gerou, a água é salgada e você não sobreviveria em seus abismos, onde desembocam todos os rios deste mundo. Você sempre teve esse medo? indagou o homem.

- Não me lembro! Sei que gostaria de não saber nada, como sempre foi. Agora eu possuo este alheio sentimento. Vou morrer em breve, mas, por favor, não me jogue vivo no rio! Deixe-me morrer bem quietinho aqui, ao seu lado. A minha boca dói, está machucada, foi você quem fez isso.

- Pela tua visão isto se chama mal! É algo relativo e também foi inventado pelo homem, creio eu. Licerre enxugou o sangue que escorreu da boca do peixe e, depois, acomodou o corpo quase sem vida do animal. Você precisa viver! Eu deveria colocar você de volta neste rio, é incompreensível o que você está pedindo. Por que você não quer viver? E por que eu te compreendo?

O peixe, ainda em agonia, sussurra no ouvido do homem.

- Porque tenho medo! Tenho muito medo da escuridão e medo de ser devorado por outros. Se voltar para estas águas também morrerei. Nasci para ser devorado, apenas isso! E agora que sei sobre o oceano e a existência perdi a vontade, tudo perdeu o sentido e eu não recordo de mais nada!

E foram as últimas coisas que o peixe falou antes de morrer.

Cores cheias de melancolia mudavam a aparência da noite. Licerre pegou o peixe com as duas mãos e o soltou, suavemente, num redemoinho. Lavou os pés enlameados, juntou as coisas e foi embora, seguido pelos vagalumes.

 fim




2 comentários:

  1. Belíssimo, Arlindo.:)
    Os peixes têm razão em temerem o homem. Li há pouco tempo que na China estavam vendendo chaveiros com peixinhos vivos. Olha que covardia. Recentemente, li outro artigo que falava sobre peixinhos que, depois de tatuados, viravam amuleto. Covardemente eles desenhavam imagens e escreviam aquelas já conhecidas palavras que trazem (dizem eles) energia. Enfim, se o peixinho não morre no oceano,é humilhado e devorado (dessa maneira) por esses loucos varridos.
    Seu conto é lindo,digo mais uma vez.Parabéns!!!

    Um beijo, amigo talentosíssimo!!:)

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  2. O Dilim, em seu pequenino, compreendeu sua agonia e a do peixe...Penso na imensidão de tudo - na fluidez da água e da nossa inutilidade diante do ocaso do mundo.Lindo e triste conto, menino Arlindo!!!!

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