O sol resplandece no pomar e das telhas caem sombras que margeiam a casa. De suas janelas de silêncio glacial afloram ruídos desconhecidos, compassos desiguais e hórridos, que ceifam o silêncio da manhã. Os cachorros não latiram, as aves estavam ausentes e alguma coisa enigmática e inexplicável aconteceu, pois tudo que era vivo desapareceu.
Boca seca e emudecida, olhar desértico sobre o teto do quarto, Tito acordou e já passava das seis horas da manhã - coisa que ela raramente fazia era acordar tarde. Não lembrava de nada. Caminhou pela casa vazia, ausência de vida, um ruído tilintando e constante permeava por todos os lugares, vindo do alto. O fogo apagado, o café e o chimarrão não estavam prontos. Rosa Maria, a bugrinha que trabalhava na casa, também não havia chegado. Tito abriu a porta da frente e caminhou pelo quintal, onde os cachorros deveriam estar. Nada. Silêncio, coleiras e utensílios espalhados pelo pomar. Ela olhou para o alto e o céu estava de um azul profundo, sem nuvens e sem as costumeiras aves.
Ainda de pijama, Tito percorreu a estradinha que liga sua casa até a casa do agricultor, o ajudante na pequena lavoura de cebolas. O silêncio absoluto deixava o ruído enigmático que vinha do céu a soçobrar por entre as fileiras da plantação. Na casa não havia pessoas, apenas as roupas que o homem e sua mulher vestiam e estavam na beira do fogão de lenha com borras de café. Tudo havia evaporado, corpos de criaturas grandes e minúsculas como os insetos.
De volta para casa, Tito procurou o rádio que transmitia apenas ruídos iguais aos que ela ouvia constantemente em sua cabeça. Era um zumbido modulado, matemático, vinha de algum ponto do espaço, tinha interferência numa área de vinte quilômetros quadrados - um cone, um redemoinho ou um vórtex de luzes primitivas e sons. Abrangiam sua propriedade parte do rio Apa e uma lagoa que deveria estar repleta de marrequinhas-do-brejo e tilápias. Sem montaria, ela percorreu toda a propriedade enquanto pensava nos tempos amargos pelos quais perambulou feito um fantasma pelas ruas do porto da cidade de Corumbá, em Mato Grosso do Sul. Foram anos pesados, embrutecidos pela loucura e depois a cura, como o esgar de um boi a ruminar ali, naquele lugar, seu céu e seu erebo final.
Misteriosamente, ela perambula pelos corredores do curral e os coxos ainda estão cheios de sal. Todo gado também sumiu e Tito encontrou apenas as vestes do bugre que cuidava das vacas e retirava o leite. Ela jamais tinha experimentado algo mais cruel, desde a morte de seu amado, o homem que lhe salvara a vida duas vezes. E depois que ele foi embora, sua ausência a levou ao extremo limite novamente. Dizia ter dores de barriga, cólicas e ouvia loucos rugidos de trovões noturnos e paredes vermelhas derretendo diante dela. Não perdera o juízo e nem a fé depois disso, continuou a grunir quase sozinha na propriedade, mas submetera-se à vontade de Deus e seus caprichos fugidios e incertos para sempre. Agora, em seu mundo, o único pecado é tomar chimarrão três vezes ao dia, com ervas e cipós que os bugres do lugar chamam de ayahuasca, um remédio e um alívio para persistentes sonhos ruins.
Incompreensíveis foram aqueles anos em que Tito e seu amado chegaram naquele lugar. Havia um enxame de fantasmas, as noites eram geladas, longas e viúvas. E a todos que ali viveram foi misteriosamente concedido o mais amargo dos destinos. Os empregados da fazenda, os cachorros, cavalos e até seu amado foram mortos degolados e, depois, cuidadosamente desossados, expostos ao sol com sal grosso. Besuntada de óleos aromáticos, toda a carne dessa gente foi defumada sobre o fogão de lenha. Os ossos repousam em covas adornadas por urtigas e estercos.
Naquela mesma noite, o ruído que vinha do espaço desapareceu e a terra foi tomada por um silêncio mortal. Cigarras, grilos, minhocas, borboletas, vagalumes e mariposas desapareceram, foram convertidos em poeira. No céu brilham embaçadas estrelas com estilhaços de nuvens azuladas. Pela varanda da grande casa, Tito e seus olhos fundos viajam em pensamentos para um passado mais distante, quando vestia rendas e saias de padrões axadrezados cobrindo sua beleza e juventude. Saracoteios ante os espelhos iluminados, seus cabelos cor de trigo e olhos amendoados. E o que existia lá no passado?, pensava Tito, enquanto embalava a rede de dormir com o pé esquerdo. Tudo aquilo ficou gravado num picumã sobre o fogão de barro ou o passado ainda estaria calcinado numa fotografia desbotada ou até em um punhado de terra num sepulcro no curral... (?)
Noturnal e sem os perfurantes ruídos dos cicadídeos, uma chuva-criadeira assediou a casa e trouxe insônia e frio. As árvores começaram a sussurrar, exigindo de Tito respostas da sua vida e seus dúbios teoremas. Madrugada de acerto final para sua alma, um sacrifício aos silêncios que murmuram em seus ouvidos cada tempo vivido e justificado com lágrimas e angústias inextinguíveis, como o seu plácito de amor e, por fim, a duradoura solidão. Ainda na varanda da casa teve visões do barco iluminado cujo nome era “Delírio”, mas conhecido, de Corumbá até a cidade de Assunção no Paraguai, como “barco das putas”, onde ela trabalhou durante toda a adolescência. Foi seu segredo maior e nem sua paixão teve acesso em seu coração de moça. Época de desespero, vergonha e sonhos alheios.
Cálida chuvarada cai sobre toda a região. Tito sentiu a madrugada chegar sem o cantar dos galos, mas agora podia ouvir o ruído e sons das gotas batendo e escorrendo na terra espessa. Na manhã que chega, tudo navega para um rumo não sabido, como a chuva que cessa repentinamente, convertendo o céu num puro esmalte azulado e sem fim. Exausta, ela caminha novamente pelos corredores da casa fria. Acende o fogo com lenhas, faz um ritual do mate-chimarrão, chaleira de ferro cheia de líquido quente, toma rumo da estrada - era quase sete horas da manhã.
Pedras dendrias moldam o caminho com ervas daninhas. Tito toma o chimarrão lentamente, soltando baforadas de vapor enquanto percorre a entrada da propriedade que leva até a porteira principal. A estrada boiadeira que chega até ali atravessa o pantanal sul e termina no porto de Ladário, fronteira do Brasil com a Bolívia, lugares por onde ela nunca voltaria. Mais uma vez ajeita a bomba do mate-chimarrão - a água esfriou e Tito lava os olhos com a sobra morna. Um tremor pelas pálpebras molhadas e a atenção do olhar é atraída para a estrada que chega. Silhuetas escuras caminham pelas margens da via sob o olhar atento de Tito. Ao piscar dos olhos elas desaparecem, deixando apenas uma névoa pelo ar.
Tito retorna para dentro da propriedade. Carrega numa das mãos a chaleira de ferro vazia e suas pernas mirradas acompanham as sombras da vegetação que escorrem devagar pelo chão. Por segundos olha para o céu e enxerga vidas novamente. São urubus voando em círculos sobre carniças distantes. Uma massa de vento esganiça o velho galo enferrujado cata-vento e nuvens inventam imagens paraguaias no espaço sobre os telhados e os sepulcros no curral do gado. Ela continua lentamente a caminhar pela estradinha suja, onde o mato cobre os pés. Fala baixinho coisas sem sentido, ressuscita hábitos antigos e de volta para casa procura comida. Acende o fogo no grande fogão de tijolos, ferve água, cozinha arroz, abóbora-menina, feijão preto com carne seca, uma mão humana, sem unhas e defumada. Tinha orelhas também.
Fim.

Inquietante, sobretudo isso. mas também humano.
ResponderExcluirMuito bom Arlindo... pra mim ela morreu e não se deu conta ainda, perdida, inerte e imersa em seu inconsciente que lhe prega peças sem que ela perceba... Mas um dia ela irá acordar, afinal o tempo não é o mais poderoso como as vezes sumpomos...
ResponderExcluirAbraço cara!