quinta-feira, 7 de abril de 2011

O big bang do Jaracatiá - conto

O meu nome é Tardígrado, mas no nascimento minha avó Apolônia me nomeou Urso d’água, alcunha que também carreguei até o dia em que ela morreu. Porque, segundo ela, o Urso d’água é o animal mais resistente do mundo - e assim falavam todos na aldeia onde nasci. Sou um bugre misturado com espanhol marrueiro, mas tenho traços e espírito dos bugres. As noções que tenho das coisas não aprendi - sou um avoengo ou parte delas.

Nossa casa, salpicada de picuaba, cobertura de palhas e chão batido, ficava ao leste da cidade de Caarapó, em Mato Grosso do Sul. Fui ervateiro nos primeiros anos da mocidade, mas tive curiosidades sobre as coisas que o mundo podia criar e o céu que conseguia enxergar. A pluralidade é uma lei natural, a natureza reflete em ecos tudo que enxergamos. Eu sou uma das partículas de Deus, assim como a papaína que também corre no mamão-do-mato.

Minha avó Deolinda armava a nossa rede de dormir sob o luar. Noite após noite, ficávamos por longo período olhando o céu e o fogo-fáctuo que minava do solo em que viviam os jaracatiás, um pomar de estrelas e seus frutos doces. Energia para milhares de papagaios, centenas de papas-laranjas e milhões de outras vidas que não enxergávamos, pois era noite também em nosso viver... E foi numa noite dessas que me perguntei: por que o céu é escuro?

Nos anos que se seguiram, uma cadeia de casualidades se estendeu pelas estradas e pelo espaço no tempo em que vivi. Vaguei pelo mundo das aparências nas cidades dos homens e na Meca da civilização com toda sua tragicidade. Tive angústia animal ao achar respostas primitivas para questões filosóficas e respostas exatas para um mundo além de nosso olhar. Sei que o pensamento é um servo da ciência. Cheguei muito longe e, como um peixe, voltei para a casa onde nasci.

No amanhecer daquele dia róseo-perturbado, havia nuvens púrpuras em forma de cordas de um instrumento musical. O vento soprava para o sul das árvores e eu caminhava lentamente rumo ao riacho, lugar onde minha mãe lavava roupas e cantava velhas canções em guarani. Nossa casa ainda estava fechada, o mato havia crescido e plantas trepadeiras tomavam conta de todas as paredes. Tudo ao abandono.

Um milhão de papagaios pousou sobre os galhos dos jaracatiás e seus futricos levavam queixas ao céu daquela manhã. Eu não pude conter a alegria que tinha guardada no meu sapicuá de viagem. Sentei-me encostado no corpo de uma árvore de jaracatiá. O chão estava repleto de frutos maduros, podres e espalhados por toda a extensão do pomar. Tive a impressão de ter colocado a mão direita sobre uma cobra que ainda dormia. Permaneci sentado e vi seu corpo serpenteando por entre os frutos do chão - era uma cobra coral, cujo veneno já estava em meu corpo.

Senti dormência na mão, minha respiração ficou acelerada e as pálpebras caíram. Perdi a noção do tempo, fiquei alguns segundos inerte e o veneno seguiu mais lentamente sua rota em meu sangue. Agora, pelas frestas dos olhos, lágrimas cobrem a superfície ampliando a visão. Vejo formigas enormes que comem sementes gigantes. Uma onda de choque inicia-se de uma semente de jaracatiá que vai à explosão. Verticalmente, sobe aos céus criando formas no espaço. O mundo nasce a todo momento e criaturas como nós vivem em constantes reencarnações atômicas.

Tenho todos os sentidos confusos, ouço as batidas do coração, agora lento. O tempo já não existe e enxergo coisas que talvez estejam apenas na minha mente, como outra dimensão, uma gaveta no espaço com outro tempo. Os papagaios estão cantando, já não consigo ouvi-los,o meu coração está parando, não tenho movimentos eu estou entrando em criptobiose.

E naquela manhã o bugre Tardígrado perdeu o sentido, a razão e o tempo. Mais uma vez tais partículas de Deus voltam a circular por aí, sem rumo, destino incerto. O real é mais extraordinário que a ficção e alguns segundos após sua morte aconteceu algo real. Foi quando todos os papagaios que ali estavam cantaram numa só voz... ”Dicen que los hombres no deben llorar, por una mujer que há pagado mal, pero yo no pude contener mi luanto, cerrando los ajos, me puse a lloar... “ Era a canção que sua mãe cantava enquanto lavava roupas na beira do riacho.



Fim

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