quarta-feira, 18 de agosto de 2010
O terceiro oVo - conto
No fundo da casa onde morou até os dezoito anos, havia um pequeno rio de sangue e vísceras que saía do matadouro de boi e escoava rumo ao Pantanal. Também uma plantação de mandioca - trigo e pão daqueles dias -, mangueiras e abacateiros que eram seus confidentes em dias mornos divididos com urubus, nuvens ralas e apitos de trem que vinham com o vento da estrada de ferro. Foi quando aprendeu sobre a insônia do universo e seus efeitos Doppler. A luz dos dias que se seguiram era cegada por outra exterior, cheia de cheiros e dobras – começo de um novo século. O mundo é uma experiência assim como viver, pensava ele, parado em pontos de ônibus que lhe consumiam metade do tempo vivido até ali.
Os olhares das moças e dos rapazes eram de encanto e desejo sobre seu corpo, belo e quase perfeito. A boca tinha a simetria de uma fruta de vermelho profundo, mas nunca beijara ninguém. Conheceu Ariadne na faculdade, época em que ele ainda usava o nome de Teseu, herança do avô paterno. A moça era filha de um famoso ervateiro da região de Amambaí, Mato Grosso do Sul. Quase se casaram, mas, por uma equação mal colocada, eles se tornaram amantes fraternais. Ariadne também se formou na escola de pedagogia e, neste mesmo ano, foi embora de Campo Grande. Deixou Teseu, que agora se chamava Rubens, nome que ela lhe deu.
Furnas de Creta era um labirinto de pequenas estradas de terra avermelhada que se embaraçavam com a vegetação do cerrado e o pasto para o gado. Inúmeros sítios de pequenas plantações que no século passado foram refúgio para escravos negros e cujos descendentes ainda estavam ali. Dotado do senso comum, que existe num mundo de aparências humanas, Rubens chegou a Furnas com pouca bagagem, de motocicleta e, na pequena escola rural que servia a comunidade, ele foi morar e trabalhar. Quando o outro século chegou, Rubens ali vivia por dois anos. Plantara um jardim de tomilhos, alecrim e manjericão. Cuidava da escola campestre, sua casa, onde ensinava poesia, bordados e a fazer pão.
Aninha, sua preferida, tinha afeição por poesia, olhar triste, solidão e morava com o pai desde o dia em que a mãe morreu. A menina negra, tataraneta de escravo reprodutor, era um exemplo de seleção de espécies, inteligência superior, dez anos de idade e um metro e setenta de altura, sua aluna e sua filha, desde então. O pai de Aninha, um lavrador rude, simples e de bom coração, cuidava da filha, criava vacas e fornecia leite para toda a região. Conhecido por Minotauro, o leiteiro, negro de físico avantajado, tinha dois metros de altura, quase um bicho - ignorante do mundo, mal sabia falar, às vezes emitia sons guturais. Perdera a esposa no dia em que Aninha nasceu.
Numa tarde desalentada, pálida, onde maritacas cantam o impossível por entre galhos de erva - gorda, Rubens fazia sua rotineira caminhada após as aulas - era quando levava Aninha pela mão até a porteira da leiteria onde a menina morava. Foi quando encontrou pela primeira vez com Minotauro. Os homens nunca compreenderão a inabalável e irreversível trajetória do tempo, que também vai desvirginando o espaço e criando coisas esquisitas, mundos e almas, pensava Rubens com o olhar cravado nos olhos brilhantes do gigante púrpuro. Indiferente e contida, a noite empresta seu espaço para grilos, urutaus e o pulsar dos corações daqueles dois homens.
Rubens era um arquiteto de pensamentos sobre aquilo que se pode manifestar no tempo e no espaço, segundo as leis do entendimento. Mantinha a beleza do corpo pelos olhares externos, um fenômeno que transformava seus fluidos em ações desconhecidas e prazerosas. A enigmática e desconcertante atração entre eles era como um grito, onde o eco se perderia no desconhecido, uma experiência numa escala infinita, próxima de deuses e contrariando um labirinto de dogmas.
O tempo desvanece-se graciosamente sob o azul do céu e os relógios são objetos físicos afetados pela imprecisão quântica, ante os pensamentos de Rubens, que nos anos seguintes se apaixonou profundamente pela Hera-africana - amor físico, dores do sexo, caráter de fêmea e também desenvolveu uma espécie de androgênese, cujo núcleo paterno era do Minotauro, pai de Aninha, agora com 18 anos de idade e professora naquelas furnas.
Foi assim por muitos anos. Rubens, andrógino e mãe, cuidava da leiteria onde cunhou uma existência além de suas expectativas, como um bizarro sistema binário de sóis. Sua vida era um pulsar de duas estrelas em colapso e suas danças de morte, imitação do mesmo conjunto de matéria que tenha gerado o Cosmos, um ovo cósmico – sua conjectura e sua fé.
Aos olhos externos e humanos, aquilo era um ovo. Um simples corpo, resultado da fecundação do óvulo no ovário de algumas espécies. Albuminas, graxas, protoplasmas, envoltórios e Rubens passou a fecundar. E foi no terceiro ovo que uma criança humana nasceu. Menino purpúreo como o pai, Minotauro.
Outono, as vacas engordam e maritacas voltam aos seus ninhos. Tem Vela, Centauro e Cruzeiro do Sul e logo abaixo deste mesmo céu tem Carina, uma estrela que já pereceu. Na madrugada em Furnas de Creta a mesma coisa aconteceu. O gigante negro adormeceu, morreu ao lado de Rubens, Aninha e seu filho que nasceu.
As estradas de Furnas não eram mais labirintos na mente de Rubens e sim caminhos polvilhados de ouro e pólen das borboletas que pousam no coração das flores e, mesmo assim, pensa no amor que já não existe mais. O vinho de leite absorve a tristeza do coração, esvaindo para um céu róseo de nuvens em chumbo. Enternecido e desmesurado, renunciou as vacas leiteiras e a vida encantada que ali cultivou.
No oitavo mês, em pleno outono do ano seguinte, quando o vento ruge um perfume de poeira avermelhada, as ruas de Campo Grande ficam forradas pelas folhas que morrem. Tem sol em abundância, meninos gritam por detrás dos muros das escolas públicas, um picolezeiro grita: “tem sorvete moreninha!” Ariadne consome pasteis na feira, quando encontra novamente seu primeiro e verdadeiro amor, Rubens. Agora com seus filhos, Teseu e Aninha.
Fim
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Arlindo, não sei nem o que dizer. Só sinto a beleza do seu conto e fico viajando... Que espetáulo, que imaginação, my God!!! Benza Deus!!!Passei por Furnas de Creta como se já conhecesse o lugar há muito tempo. Vi Rubens (por que mulher tem mania de querer mudar o nome do amado, né?)[rs]à minha frente e me emocionei com o fim do conto". Queria mais, queria saber se iria rolar algo entre Rubens e Ariadne e saber da reação dela frente ao purpúreo pupilo .
ResponderExcluirAh...achei tão lindo quando você escreve:
..." As estradas de Furnas não eram mais labirintos na mente de Rubens e sim caminhos polvilhados de ouro e pólen das borboletas que pousam no coração das flores e, mesmo assim, pensa no amor que já não existe mais". O amor é lindo em qualquer circunstância.
Sensacional!!! Lerei mais vezes, com certeza. Coisa de louco você, hein escritor? Renderia uma bela minissérie. Parabéns!!!
Um abraço
E.T. Quero sim, O Homem da Lua.[rs]
Arlindo, meu amigo,
ResponderExcluirmais uma vez sua verve pantaneira rompe os deslimites da lógica cartesiana e do formalismo contemporâneo para criar uma obra-prima. Impressionante. Lindo e dialeticamente perfeito este conto. Seu ecletismo religioso-filosófico e sua ousadia literária revelam uma coragem que o leva inexoravelmente por caminhos inéditos, desconhecidos, estrada limite entre a genialidade e o fracasso - e por isso percorrida por poucos. Digo sem medo de errar: este é o seu melhor conto (como você consegue se superar, amigo?). E, para não me estender e inundá-lo de adjetivos com este meu comentário quase panegirical, encerro-o. Não sem antes dizer-lhe que gostaria imensamente - claro, se possível - de receber o seu livro autografado.
Obrigado, amigo.
Abraços,
Ei menino Arlindo!!! Os deuses realmente estão com você!Muito bom!E eu gosto muito dos tomilhos em seus contos...Ei , vamos uma hora dessas, ali nas Furnas dos Dionísios? Em Janeiro tudo lá é muito lindo!!!!!Vou sempre lá.Bjos poéticos.
ResponderExcluirQue texto gostoso, Arlindo. Você trabalha com maestria as palavras. Adorei o rebanho mitológico greco desfilando com naturalidade pela paisagem pantaneira.
ResponderExcluirBjs
Que delícia!! seu blog é mto bonito, parabéns!
ResponderExcluirDevo agradecer a Lau por ter indicado esse Blog com textos que são interessantes de ler. Gostei.
ResponderExcluirUm abraço,
Salete
Descobri casualmente o blog perambulando pela net.Amei...Beijks!!!
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