A linha do horizonte quase rubra estava sumindo, mas ainda dava para ver um rio, como uma serpente de espelhos, vagando por entre rochedos e refletindo as primeiras estrelas. Tinha estas imagens e o ruído de um motor triste, entre nuvens. Era tudo que ela se lembrava da sua vida até aquela noite.
O bolicho sempre ficava vazio. Nas altas horas da noite, não passava ninguém pela estrada. Fresia e seus empregados, aluados pelas substâncias alucinógenas que temperavam o jantar, faziam a rotineira limpeza antes de fechar. Como uma fantasmagoria que surge da noite, a menina de estatura pequena, olhos ligeiramente puxados, cabelos lisos e aparência indígena, entra e se atira sobre uma cadeira ao lado do balcão. Fresia não sofria de estereopsia, tinha o coração fumado de altruísmo, na profissão de parteira ajudou mil almas nas fronteiras da Bolívia e Paraguai. Era especialista em plantas e botânica do fumo-de-angola, pango, soruma, manga rosa, birra, cânhamo e haxixe. Fresia tinha distúrbio de solidão, servir aos andarilhos e viajantes naquele eremitério - era o que melhor sabia fazer.
- Boa noite, estou perdida! - a garota fala sorrindo, enquanto retira a mochila e revela os pés no chão. A refração da luz incidental do lampião a gás dava nuances da rara beleza sobre o rosto miúdo da misteriosa menina com aparência de criança.
- Resta apenas um pedaço de bolo de crisálida negra. Tem geléia de pupas e suco. É tudo o que você precisa comer nesta noite! Fresia senta-se ao lado da moça, colocando os pratos servidos com desvario e sensatez. Indaga nome e origem e lhe oferece um trabalho. Narra sua chegada por ali como uma efeméride que continua a gravar tudo num banhado da memória e da sua ínfima jornada pelo tempo. A Madrugada se edificou e, quando as horas eram queimadas com folhas de pango, todos foram dormir, exceto Fresia e a andarilha, que numa espécie de torpor, viajavam presas em cadeiras e mesa posta com restos de comidas, mariposas e imagens deformadas.
- O início do tempo caiu no início da noite, que precedeu o sexto dia de outubro, ano de 1956. Neste afã, descobri algumas possibilidades amedrontadoras e bizarras para seres humanos, porém verdadeiras. Fresia continua explicando para a garota sobre estáticas viagens com um combustível tirado do estame da natureza.
- Eu tive um sonho acordada, um preâmbulo na mente, enquanto andava pela estrada. Antes disso eu era apenas uma mulher nascida no Vietnã e que vivia na fronteira do Brasil com o Paraguai, cidade de Ponta Porã. 18 anos de idade, casada com um homem de 77 anos e uma fuga espetacular, saltei de uma aeronave com paraquedas sobre este lugar ermo. Rise Nong Dan é meu nome, conta a moça com entusiasmo.
Rise Nong, Fresia e seus criados entraram em estado de alheamento do espírito e continuaram o ciclo, retirando energia da natureza, vivendo naquela beira de estrada e cuidando da belíssima lavoura de borboletas irisdescentes. A plantação ficava dentro de um buraco de quase seiscentos metros de diâmetro e com quarenta metros de profundidade. Uma gruta gigante desmoronou, criando um nicho intrincado de vidas. Uma floresta com árvores de Jatobás do Cerrado e Capitães do Mato. As araras faziam ninhos nas copas das árvores. Ao sul, um pântano de águas claras, onde viviam as saracuras que se alimentavam das larvas e pupas, que viviam nos pés da maconha por mais de duzentos anos.
- Nada é falso ou simulado neste Universo, que poderia ser uma bala de revólver viajando numa velocidade fantástica, rompendo um outro universo de nadas. Eu plantei os pés de maconha, depois os ovos das borboletas Phyllocnistis, que povoaram toda lavoura. Quando em estágio larval comem todos os pés da canabis, deixando apenas longos talos para as crisálidas negras dormirem. São haxixes vivos que uso na culinária; as que sobram, criam asas e continuam os sonhos, você me compreende Rise Nong?
(indaga Fresia com o olhar sereno sobre a vietnamita que adormece sobre a mesa.)
fim

Arlindo, meu amigo, repito aqui o comentário que lhe enviei por e-mail:
ResponderExcluirQue viagem! Quando penso que já vi tudo, você me inventa uma história dessas... Difícil destacar um trecho mais bonito, mas este - "Rise Nong, Fresia e seus criados entraram em estado de alheamento do espírito e continuaram o ciclo, retirando energia da natureza, vivendo naquela beira de estrada e cuidando da belíssima lavoura de borboletas irisdescentes. A plantação ficava dentro de um buraco de quase seiscentos metros de diâmetro e com quarenta metros de profundidade. Uma gruta gigante desmoronou, criando um nicho intrincado de vidas. Uma floresta com árvores de Jatobás do Cerrado e Capitães do Mato. As araras faziam ninhos nas copas das árvores. Ao sul, um pântano de águas claras, onde viviam as saracuras que se alimentavam das larvas e pupas, que viviam nos pés da maconha por mais de duzentos anos." - é incrível, surpreendente, lindo. Seu conto é de tirar o fôlego de beleza e poesia. Perfeito do título ao fim. Parabéns.
Quem sabe quem é, sabe o que escreve; quem não sabe o que escreve se perdeu há muito.
ResponderExcluirSou teu admirador de cadeira.
Espero a próxima com a calma d'uma crisálida, transformando-me em expectativas.
Um forte abraço.
No meu blog Picadinho de Bacana, tem um sorteio bem legal de aniversário.
Se queseres, passa lá.
E o Camões de Cueca também espera tua visita.
Um abraço!!
Grande Garoto!
ResponderExcluirQuando bebemos e comentamos às vezes erramos um pouco no português, porém nunca na mensagem.
Desculpe-me pelo Queseres.
Um abraço
Grande viagem Arlindo... Alucinógeno seu texto me parece, pois acho que consigo exercitar a imaginação quando me permito outras possibilidades de leitura...
ResponderExcluirObrigado Arlindo!!!
Cuidar de uma belíssima lavoura de borboletas irisdescentes deve ser um paraíso, a sensação de vida eterna.
ResponderExcluirBrilhante, seu conto. Lindo!!! Parabéns!!
Um abraço.