Cresceram arbustos sobre as pedras, ruínas da antiga fazenda. Antes disso, a casa dos mortos ardeu em fogo, pelo verbo e pelas cunheiras de madeiras, onde abrigavam ninhos de pardais e corujas, cujos filhotes morreram queimados. Não sobrou nada, nem o pomar de frutas cítricas, exceto sementes de plantas insetívoras e carnívoras que, ao acaso, criaram um enigmático matadouro de exornar, um jardim que comia vertebrados, através da planta-jarra australiana, de amarelo transparente, e que sempre exibia em seu estômago borboletas, ratos e camundongos. Fúnebres adornos dourados para a mesa onde serviam o chá das 5 horas da tarde.
Vestido de rendas e chapéu, olhar azul imponente, gestos precisos e graciosos, ela era vista assim, naquele extravagante jardim, ao longo dos últimos 12 anos. Aconteceu depois que seu marido, o embaixador Afternoon, morreu. Miss Mary Afternoon tinha perdido o tempo, naquele ermo de sofisticação e fartura de sol. Nascera ao leste da Inglaterra, em Ipswick, onde casou-se e veio parar aqui, na fronteira do Brasil com o Paraguai. Tomar chá era seu maior prazer naquela hora da vida, por todos os dias, sempre no rotineiro horário e acompanhada de Maria, uma camponesa de hábitos simples, mas que estendia o seu trabalho para o ritual com sua mistress.
- Você sabia que a velocidade é o segredo da juventude eterna e que o infinito de uma pessoa está no desvão das pernas? – indaga Afternoon, enquanto ajeita o vestido sobre a cadeira, servindo o chá.
- Eu sei que é um lugar tão quente que azeda o leite e adoça o abacaxi. Meu pai, que Deus o tenha, sempre aconselhava: nunca caminhe olhando para as unhas dos pés! – disse a mulher, sentando-se próxima da mesa.
- Maria, vou lhe contar sobre um verdadeiro affair. É a vida daquela moça que serve a nossa mesa todas as tardes. Você gosta com muito açúcar e pouco leite! - Miss Afternoon nunca se esquecia de nada. Era uma criatura de palear palavras como poemas.
- Tinha quatro estrelas na cara da noite, sem propósito ou ordem. Aqui, nos pés, a mesma noite acendia vagalumes por entre tangerinas e limões. Em volta da casa na qual ela vivia com seu husband e filhos, subia um muro com altura de quatro sabiás-laranjeira e um pardal. Ela o escalava ardendo de paixão pelo homem azul-púrpura, que a levava, em seu palanquim cor ocre queimado, para o escuro da noite. E assim foram oito anos em noites! Hoje, a vida dessa moça é um murmúrio. Em seu quarto, tem uma réstia de noites viciadas - do teto ao chão. As estrelas são quimeras que nossas línguas ajeitam sobre vírgulas e pontos. Somente para caber mais histórias nas reentrâncias da boca da noite em que vivemos, uma espécie de redemption! Miss Afternoon serve outra xícara, desta vez adiciona uma dose do velho maltado, tira o chapéu e fita o céu vazio, da quase noite.
- Achei o affair úmido e triste! Tenho lágrimas por casas que viram gretas, em que adentram luares, cupins, lobisomens e até cachorros. É um ninho sem doces, guaviras ou mariolas, geralmente sitiado por resíduos de traição e pau seco, isso é o que é! – diz Maria, enquanto serve whisky puro, depois de jogar resto do chá dentro da boca-de-jarra. (planta).
- Só o silêncio é divino! Naquela infinitude, onde as ondas quebravam às 2 horas da manhã, a mudez dos inocentes era o sono. Ela descia as escadas - guiada pelo ruído do ronco do seu husband – e saltava um muro figurado. Your man was sleeping. Unfaithful. Terminou o nosso chá! A moça do affair vem recolher tudo – Miss Afternoon recoloca o chapéu, bebe um último trago e, depois, um gole de chá.
Medeiros era uma mulher de quarenta e poucos anos. Tinha um olhar singular – ora verde ou escarlate. Trabalhava naquele hospital, hospício, desde o desaparecimento do marido e da partida dos filhos. Cuidar de loucos era seu legado.
- Vamos Miss Afternoon! A Noite chegou, posso retirar o espelho da sua frente? – pergunta Medeiros, enquanto acalenta as mãos rugosas da senhora inglesa.
fim

Fiquei muito feliz em conhecê-lo ontem em nossa aula na Uniderp. Suas ideias são sensacionais, é um orgulho entrarmos em contato com autores tão talentosos como você.
ResponderExcluirSucesso sempre!
Muito bom Arlindo...Miss e Mister Afternoon na boca da noite...como como o Blackbird singing in the dead of night, Take these broken wings and learn to fly, All your life
ResponderExcluirYou were only waiting for this moment to arise...
ë isso cara!!!
Marcus Câmara.
Mais um conto fantástico, num estilo todo teu.
ResponderExcluirFica o convite para conhecer meu blog (amadoríssimo) de escritos.
Já que conheces o meu de comidas.
http://camoesdecueca.blogspot.com