domingo, 14 de março de 2010

O Outro - conto


 Abril terminava ali, naquela noite. Uma estrada de velhos ossos, som estridente das cigarras, incógnitas paisagens e estrelas salpicavam no marrom do céu. Poeira era como roupas sobre as perpétuas encarnadas e carcaças que se alinhavam ao longo da via. Crista dirigia em alta velocidade, tinha pressa de chegar a Meteora, hotel que era a metade do destino e onde passariam alguns dias. Seu franzino macho, marido e amado dormia no banco ao lado, como um réquiem velado pela dedicada esposa. Desde que se conheceram, há 18 anos, Crista e Antonio viveram uma desabrida história de amor. Eles não tiveram filhos, faziam pães e doces para o sustento. Guardaram um pouco de dinheiro para uma vida nova numa outra cidade, onde teriam filhos e não mais trabalhariam.

Meteora tinha pouco mais de 200 habitantes e quase todos viviam do hotel que dava o nome para o lugar. Foi construído no meio de gigantescas árvores de pau-de-bugre, ao lado de uma lagoa margeada por timbó-caás venenosos, vegetação de cor púrpura que exterminou outras ervas.

- Chegamos! – fala empolgada Crista, que estaciona o carro e beija o marido sucessivamente pelo rosto.

No quarto ao lado havia um homem do coração eunuco, amputado daquilo que molha e pulsa. O corpo era como bronze fundido no fogo do inferno e estigmas, sinais em tatuagens gravados na pele. Também se chamava Antonio, queria esquecer o passado turbulento, apagar maus sentimentos e a vida de banditismo que teve. E por dias ele estava ali, onde bebia tequila no café da manhã e observava os peixes venenosos infundidos pelas plantas mortais do lago.

Um vento aleivoso soprou pelo vão das pernas de Crista, levantando o vestido amarelo e deixando, por alguns segundos, as brancas coxas expostas - partes que somente seu marido tinha visto e tocado. E por detrás de um óculos negro, o olhar incônscio do outro Antonio seguia a moça por todo hotel e nos passeios em volta do lago.

As águas profundas e púrpuras do lago tinham espessura de saliva, gelatinosa e ele funcionava como um cérebro gigante. À noite dava para ver os peixes vermelhos, que se moviam criando pequenas descargas elétricas, raios, como um pensamento espalhado no espaço, algo sublime que dava interferência em outros cérebros e outras mentes. Crista e Antonio se encontraram sozinhos pela primeira vez no langor do anoitecer. Ela perambulava sozinha, numa espécie de torpor, embriagada por vinho e no cio. E sob a vegetação que murmurava para si mesma, eles beijaram seus corpos e rolaram no virgem espaço da escuridão. Antonio a tragou com seu corpo imenso e sexo por muito tempo. Carícias fulgurantes, ousadas e uma torrente de esperma mancharam o vermelho que escorreu do sexo de Crista. Ela chorava em silêncio no gozo e nem percebeu a dor e a ferida que aquele gigante homem impunha em cada centímetro, cada átomo de seu ser. Antonio, seu marido, dormia sob raios de luar e, no limiar entre um sonho e um pesadelo, ele assistia ao lago, os peixes vermelhos nadando em faíscas e Crista, sua esposa em agonia, êxtase e coberta por tatuagens. E nos dias que se seguiram, Crista e Antonio, seu amante, se misturaram em selvagens confrontos sexuais como ela nunca tinha tido ou sonhado.

Antonio, aquele homem sem misericórdia, sentimentos apodrecidos e que purgou desgostos por toda uma vida, havia mudado e jurara nunca mais matar outro homem. Carregava o pensamento de que o sono profundo das coisas era dádiva de Deus e suas vidas eram do Diabo. Porém, agora, era prisioneiro de uma mulher pérfida, de energia inquebrável, bela e louca demais para ser tola. Crista, de amor renegado, tinha outro plano para o futuro.

Noite quente, vinho gelado e uma iguaria feita com peixe vermelho habitante do lago. Crista prepara uma despedida de amor e ceia para Antonio, seu marido, que sentiu os odores de outro homem e um sexo que não era mais dele. Mesmo assim, estava embriagado pelo álcool, pelo veneno e pelos fluidos produzidos no auge de uma euforia ante a morte. Na madrugada, Crista carregou sozinha o corpo de Antonio, seu marido, para a escuridão.

- Agora dormes, meu amor, em teu fúnebre ornamento de vegetais e pedras. O mato te cobrirá e a chorosa ventania desta noite levará tua dor – Crista murmura em lágrimas, enquanto coloca o corpo do marido em pé no oco do tronco de uma grande árvore.
O céu daquela manhã de maio tinha tonalidade rosa bruto, que refletida no lago dava nuances encarnadas de sangue e ferrugem. Crista e Antonio, cúmplices de um crime perfeito, seguem juntos rumo a uma nova vida e longe de Meteora.

Quarenta anos mudam todas as coisas, inclusive o Hotel Meteora, agora numa cidade com milhares de habitantes. Porém, o lago misterioso e seus habitantes continuavam vivos e pensantes - um cérebro primitivo de grande proporção. Cristina procurou pela árvore de pau-de-bugre, tumulo de seu pai, que ainda estava lá, uma sentinela do tempo. Como Crista, sua mãe, havia confessado, aquele corpo no oco da grande arvore, conservado pela vegetação era seu verdadeiro pai, Antonio.

Fim

2 comentários:

  1. Salve, Arlindo!

    Belo conto, belas imagens, bom demais!

    Parabéns, amigo!

    Rangel Castilho

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  2. Maravilhoso conto, Arlindo. Com as cores pantaneiras e sua marca. Parabéns.

    Forte abraço,
    Nivaldo

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