Chegou de algum lugar, mas esqueceu de onde. Os olhos eram subterfúgios do verbo que usava para sobreviver. E como um profeta, gritava oportunos discursos que foram escritos por um filósofo de dois mil anos atrás. Tinha 24 anos e já chegara ao limite do seu conhecimento sobre o mundo e seu habitual avezar. Pastor Anderçon Creise carregava o peso da extrema insensatez da idade. Pregava pelos corredores e escadarias do parque Dom Pedro e, de domingo em domingo, foi arrebanhando seguidores, até conseguir reuni-los num pequeno salão, no bairro do Brás, em São Paulo. Nas noites de quinta-feira tinha cerimônia de culto, era quando pastor Creise distribuía alguns cigarros feitos com erva-doce para os seguidores mais fiéis. Ao fim, violava e aviltava sua própria doutrina num discurso em tom amargo, no qual, por repetidas noites, apregoava seu amor hetero-homossexual por tudo que se movia no mundo.No auge de seu arrazoado orar foi que um fortuito episódio lhe revogou a palavra e o pensar. Contaminado pelo amor, sofria uma síndrome de Deus.
E no dia de Natal, São Paulo amanheceu em trovoadas, águas e nuvens pesadas fitavam para um pequeno quarto no Brás, onde por de trás da janela antiga um leito recebia o peso do pastor Anderçon Creise, que respirava pela última vez. Situação de exaustão físico-psíquica, fragmentos de instantes vividos vêm ao lume. O coração parou... O homem está morrendo.
A luz deixara de entrar em alguns dos cem cômodos, as paredes adquiriram um tom cinzento esverdeado de pequeninas plantas em musgo, o chão era frio, úmido e pelos cantos lacrimejavam águas armazenadas nos tijolos. Também não tinha janelas, apenas alguns buracos fechados com ferro em cruz, perto do telhado de cinco metros de altura. O lugar era endoidecedor, lúgubre o lar para mais de trezentos internos, loucos, dementes e alienados – uma pintura de Goya. Ele nascera naquele manicômio e passara quase 24 anos sem roupas. A parte primitiva do cérebro tomou o controle e seus dentes cresceram, os pelos grossos tomaram conta do corpo e com freqüência tinha alucinações visuais e auditivas, herança dos pais que viveram por mais de cinqüenta anos no manicômio, como internos. Emoções turvas abriram outras portas na mente e como uma cascavel enxergava também no escuro em infravermelho.
Na esquina de um Natal sombrio, nuvens estranhas criaram ilhas de algodões que choveram um oceano por três dias. As portas do velho Manicômio foram abaixo e seus moradores desapareceram tentando atravessar um rio de lama cujas correntes, invisíveis, eram ondas de rádio. Ele sobreviveu, sua cor de morto lhe dava um elevado nível de filosofia ante à morte. Tinha memória de um mundo selvagem do qual nada era pior que assistir loucos morrendo afogados em ondas de rádio sobre um deserto de lama e sal. Depois do temporal o céu voltou para sua rotineira vida. Sozinho, novamente, ele se põe na estrada rústica que levava para Nova Cafarnaum, lugar que conhecia apenas em sonhos. Caminhou por cinco dias e noites, assistia imagens espetaculares sobre sua cabeça, comia paradoxos e greenberrys que colhia pelas margens ásperas daquela via. E no final do quinto dia ele acordou do transe numa vereda onde luzes se cruzavam em velocidades altíssimas rumo ao espaço aberto. Ele sentia o efeito de alguém caindo num buraco sem fundo. Alienado às relatividades temporais do mundo, se viu perdido ante um oceano de fluído escuro e extraordinariamente desabitado de almas como ele conhecia. Sem erudição científica, sem corpo físico, apenas aquela centelha de energia não tinha onde se apagar ou agarrar e, assim, como toda criatura ignorante, se perdeu no vazio absoluto.
Por trás da janela de vidro no bairro do Brás, pastor Creise é velado por nuvens grávidas que choramingam as últimas gotas da chuva e alguns poucos fiéis, que cultuam o simples processo neurobiológico como uma experiência mística. Suas vozes oram em coro para um céu absolutamente vazio.
fim

