quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Azul disfórico - conto




  Chegou de algum lugar, mas esqueceu de onde. Os olhos eram subterfúgios do verbo que usava para sobreviver. E como um profeta, gritava oportunos discursos que foram escritos por um filósofo de dois mil anos atrás. Tinha 24 anos e já chegara ao limite do seu conhecimento sobre o mundo e seu habitual avezar. Pastor Anderçon Creise carregava o peso da extrema insensatez da idade. Pregava pelos corredores e escadarias do parque Dom Pedro e, de domingo em domingo, foi arrebanhando seguidores, até conseguir reuni-los num pequeno salão, no bairro do Brás, em São Paulo. Nas noites de quinta-feira tinha cerimônia de culto, era quando pastor Creise distribuía alguns cigarros feitos com erva-doce para os seguidores mais fiéis. Ao fim, violava e aviltava sua própria doutrina num discurso em tom amargo, no qual, por repetidas noites, apregoava seu amor hetero-homossexual por tudo que se movia no mundo.No auge de seu arrazoado orar foi que um fortuito episódio lhe revogou a palavra e o pensar. Contaminado pelo amor, sofria uma síndrome de Deus.
 E no dia de Natal, São Paulo amanheceu em trovoadas, águas e nuvens pesadas fitavam para um pequeno quarto no Brás, onde por de trás da janela antiga um leito recebia o peso do pastor Anderçon Creise, que respirava pela última vez. Situação de exaustão físico-psíquica, fragmentos de instantes vividos vêm ao lume. O coração parou... O homem está morrendo.

A luz deixara de entrar em alguns dos cem cômodos, as paredes adquiriram um tom cinzento esverdeado de pequeninas plantas em musgo, o chão era frio, úmido e pelos cantos lacrimejavam águas armazenadas nos tijolos. Também não tinha janelas, apenas alguns buracos fechados com ferro em cruz, perto do telhado de cinco metros de altura. O lugar era endoidecedor, lúgubre o lar para mais de trezentos internos, loucos, dementes e alienados – uma pintura de Goya. Ele nascera naquele manicômio e passara quase 24 anos  sem roupas. A parte primitiva do cérebro tomou o controle e seus dentes cresceram, os pelos grossos tomaram conta do corpo e com freqüência tinha alucinações visuais e auditivas, herança dos pais que viveram por mais de cinqüenta anos no manicômio, como internos. Emoções turvas abriram outras portas na mente e como uma cascavel enxergava também no escuro em infravermelho.
Na esquina de um Natal sombrio, nuvens estranhas criaram ilhas de algodões que choveram um oceano por três dias. As portas do velho Manicômio foram abaixo e seus moradores desapareceram tentando atravessar um rio de lama cujas correntes, invisíveis, eram ondas de rádio. Ele sobreviveu, sua cor de morto lhe dava um elevado nível de filosofia ante à morte. Tinha memória de um mundo selvagem do qual nada era pior que assistir loucos morrendo afogados em ondas de rádio sobre um deserto de lama e sal. Depois do temporal o céu voltou para sua rotineira vida. Sozinho, novamente, ele se põe na estrada rústica que levava para Nova Cafarnaum, lugar que conhecia apenas em sonhos. Caminhou por cinco dias e noites, assistia imagens espetaculares sobre sua cabeça, comia paradoxos e greenberrys que colhia pelas margens ásperas daquela via. E no final do quinto dia ele acordou do transe numa vereda onde luzes se cruzavam em velocidades altíssimas rumo ao espaço aberto. Ele sentia o efeito de alguém caindo num buraco sem fundo. Alienado às relatividades temporais do mundo, se viu perdido ante um oceano de fluído escuro e extraordinariamente desabitado de almas como ele conhecia. Sem erudição científica, sem corpo físico, apenas aquela centelha de energia não tinha onde se apagar ou agarrar e, assim, como toda criatura ignorante, se perdeu no vazio absoluto.

Por trás da janela de vidro no bairro do Brás, pastor Creise é velado por nuvens grávidas que choramingam as últimas gotas da chuva e alguns poucos fiéis, que cultuam o simples processo neurobiológico como uma experiência mística. Suas vozes oram em coro para um céu absolutamente vazio.
fim

domingo, 6 de dezembro de 2009

Polux & Castor - conto


Sentado no alto do edifício da Galeria São José, Polux tentava entender a visão que tinha sobre os horizontes em constante sépia avermelhado. Era uma librina de grãos de terra suspensos, formando uma grande redoma de poeira, uma paisagem que ecoava tempos primitivos da Terra e, logo abaixo, a cidade cindida entre córregos, cerrados e um agosto que terminava no finalzinho de outubro. Às vezes, Campo Grande parecia um barco à vela assustado e naufragando sob estrelas gargalhantes do hemisfério sul.

Pensava Polux: o tempo é irreparável, nasci na extremidade errada dele e tenho que viver detrás pra diante...
Os gêmeos nasceram num outono de ventania, sob um céu absurdo e na parte nodosa do dia. A mãe vivia sozinha sobre a margem terrosa e áspera do rio Inhanduí-Guaçu. Maria era uma mulher singular, de muitos amores e pouca idade. Casou-se com dezoito anos e logo ficou grávida. Numa manhã de nuvens baixas, Maria lavava roupa à margem esquerda do rio, cantava com águas bebendo da vida lentamente quando chegou para degustação um homem purificado de natureza bravia e que dizia palavras com amplos sentidos. Era um ser metafórico, que pescava naquele rio e seduziu a moça com precisão e paixão. Irrompendo com a ordem natural dos acontecimentos Maria teve dois filhos, cada um de um pai e ao mesmo tempo. Múcio, seu marido, pai de Castor e progenitor de Polux, fazia um trio musical com paraguaios - tocava harpa na churrascaria “Lá carreta”- ficou profundamente abalado com a situação, triste e foi embora para o Paraguai.
E nas sendas do cerrado, onde mangueiras espionam sobre muros, os meninos cresceram juntos. Se amavam como irmãos e conheciam igualmente as razões inconsoláveis de todos os prantos. Artistas de corpo e alma, de mambembes espetáculos pelas calçadas e praças da cidade, os gêmeos sobreviviam desta arte. Polux morava no Grande Hotel Gaspar, tinha gosto por vinhos e charretes – vagava pela cidade de sul a leste.
Na diurna exultação, o quarto de luz amputada pela cortina; no segundo andar do hotel, um bem-te-vi bate o bico contra a vidraça, xícara e restos de alimento sobre a mesa, onde sombras distorcidas de formigas rondam em procissão. Sonolento, Polux se levanta e sua rotina, antes do irmão chegar, era contemplar pela janela do quarto a estação ferroviária, chegadas, partidas e algo miraculoso nas manhãs alaranjadas, onde pássaros explodiam em sons pela esplanada.
Castor morava distante do centro da cidade e no meio de um guaviral; tinha oito filhos com a mesma mulher, que se chamava Maria como sua mãe. A família tirava mel das flores de mirtáceas através das abelhas que cultivavam. Qualquer grande esperança é grande engano - pensava Castor - somos peregrinos de uma existência absurda de agonia e lágrimas sem sentido ou glória!
À noite, velas soltam lágrimas aprisionando mariposas no escuro crespusculado dos grilos e, na alvorada do dia, nuvens calmas e aves se reúnem sobre aquele nicho de homens, formigas, bocaiúvas, araticuns e um fogão de lenha recém-aceso. Era quando Castor tinha surto de imaginação ante ao bule de café. Assistia uma gota de orvalho se equilibrando na haste da bananeira, o gato afiando as garras, os filhos dormindo e o mundo girando. Indignação extinta, ressaca vaga, vinho, remorso e um desejo exaltado de pensar forte e de nunca morrer. Castor era ave noturna, abria as auroras e fechava as escuridões, sabia que sua herança era canga pesada, criar os filhos e viver como um mortal. Costumeiramente, encilhava o cavalo para a charrete e seguia em troteada para o centro da cidade onde encontrava com o irmão Polux em frente da Estação Ferroviária. Semeadores enlevados de harmonia, além das paixões terrenais, tinham encanto de deuses gregos que ficou gravado num fotograma no céu noturno de gêmeos.

Polux balançava as pernas sobre os dez andares do edifício da galeria São José, tinha presságios enquanto assistia nuvens lutulentas que pairavam sobre a profusão de pessoas que se aglomeravam ao longo da Rua 14 de julho até o relógio central. Castor organizava o povo que olhava o relógio e cobrava em coro a decisão de Polux saltar. – Salta! Salta! Salta!
Saltou sem se benzer, por entre aplausos e emoções... Desceu os dez andares num silêncio de quem já morreu. Bateu na calçada e, por alguns segundos, ficou inerte, parecia que a vida tinha se apagado mas, de repente, ele se mexeu, sorriu, levantou, sacudiu a poeira e o aplauso em volta muito mais cresceu. Polux e Castor passaram o chapéu recolhendo o dinheiro que a platéia deu. Depois, seguiram abraçados, como sempre, rumo à Praça Ary Coelho, onde a charrete ficava estacionada.

fim