quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Papoula solitária - conto


Era como um sonho, no qual eu voava ou caía no vazio do espaço. Sentia beliscões pelos braços e pernas quando passava dentro de nuvens escuras. Despertei estonteado, pasmado e com os olhos colados num teto repleto de teias de aranhas e picumãs. Ouvia vozes por detrás das paredes e não conseguia distingui-las. O quarto girava e o ventilador de teto estava parado. Permaneci deitado por alguns instantes, pensamento lento e corpo pesado – era como um sonho dentro de outro sonho -, pensava que poderia acordar a qualquer instante!
Pelo lado de fora, um alarido de sol e gente que circulava pelas estreitas ruelas com casinhas construídas com um tipo de tijolo artesanal – adobe -, pintadas de branco. Saí daquele quarto desconhecido pela janela enorme que dava para a rua. Pessoas pararam em minha volta e eu não entendia nada - falavam espanhol com diferente pronúncia. Da casa onde acordei saiu uma mulher que se dirigiu a todos que se aglomeravam.”El hombre cayó desde el cielo!” – disse ela sorrindo. Tinha um rosto redondo, cabelos lisos brancos e pouco mais de 50 anos.
“Tengo que regresar a sus alas. Buenos días a todos” – segurou na minha mão e puxou para dentro da casa novamente.Era uma espécie de pousada rústica com alguns quartos e pouco hóspede. A mulher, a senhora com sorriso largo, devia ser a proprietária. Eu ainda não sabia qual lugar era aquele e nem porque estava ali. Confuso e intrigado, comi tudo o que estava sobre a mesa. Algumas crianças com aparência indígena olhavam curiosas pela janela. Mais uma vez a mulher se aproxima e pergunta alguma coisa: “ Hombre del cielo, como la comida?” – parou em minha frente, continuou sorrindo e novamente perguntou outra coisa, fazendo gesto de cigarro até a boca: “El hombre quiere a la marihuana? Sem respostas de minha parte, a mulher se retira cantarolando. Abre uma janela e fala gritando com alguém, ”niño, llevar las alas del hombre!”. Momentos depois entra um garoto carregando um paraquedas todo enrolado e sujo. E tudo virou um enigma novamente. O apetrecho não era meu, apenas havia sonhado que voava por entre nuvens e acordei em um pequeno quarto no fim do mundo. Voltei a dormir com a esperança de acordar daquele velado devaneio.
Dois dias de sono pesado, sem sonhar e como um morto passei. No final do segundo dia acordo disposto e com muita larica. Procuro pela mulher de sorriso largo, que já me esperava com uma refeição sobre a mesa da sala. Sempre cheia de cordialidade, ela faz gestos com as mãos, olha para a mesa e diz algo: “Compuesta de Quínoa, arroz, camote, carne de pollo y carne de llama. Auquénido andino.” Depois se retira, sorrindo.
A noite caiu como uma lavoura de papoulas sobre aquele lugar árido, cujo ar salgado era difícil de respirar. Saí rumo a um deserto que iniciava no final da rua. A paisagem primitiva era estranha aos meus olhos, havia centena de animais desconhecidos pastando e as primeiras estrelas no horizonte. Carregava o paraquedas que não era meu, alguns cigarros de maconha e pensamentos obscuros. Caminhei fumoso noite adentro e, ao fim, estava exausto no meio de um deserto avermelhado. Havia uma mão gigante esculpida em sal e areia e foi neste lugar que escrevi meu nome, história e deitei-me à sombra daquela palma.
O dia chegou novamente, minha percepção estava alterada e o sol parecia o rosto risonho e escaldante daquela mulher... Mi nombre es Ramona. Mi casa está en la ciudad fantasma. Deserto de Atacama, San Pedro. Me encontré con el hombre que cayó del cielo. Era un buen hombre. Pero era demasiado loco. Fumaba 2 libras de marihuana. La marihuana ha hecho bien en su carne. Se lo comió asado con hierbas. Sabroso!
fim

2 comentários:

  1. Arlindo,
    meu poeta pantaneiro e tangerínico, sua pena continua afiada de sentidos (o)cultos. Uma beleza de conto e de final. Imagino a carne do homem do espaço amaciada com marihuana, Hummm, que delícia.... Parabéns, amigo. Mais um conto maravilhoso. Abraços.

    ResponderExcluir
  2. Virei Fã! Muito Bom ! @SouMaconeheiro

    ResponderExcluir