sexta-feira, 20 de novembro de 2009

As noites de Maria Calíope - conto



Aquele chão vermelho e o céu sépia, durante os dias, se entrelaçavam entre as noites desconcertantes com estrelas e luzes distantes. Todos os dias de sua vida ela cruzou a fronteira do Brasil com o Paraguai onde lecionava português e música para jovens de uma reserva indígena. E todas estas noites de sua vida foram iluminadas por uma harmonia profunda e criaturas desconhecidas, talvez somente imaginadas por ela durante todos os anos que viveu. Sua natureza abstrata e lógica dava-lhe o prazer de desvendar e interagir com o universo físico, assim como ela mesma. Também acreditava que a matemática era o pilar que dava sustentação para compreender e entender o mundo.
Todas as manhãs o sol despejava pacotes de luz sobre os pobres telhados de barro, muros corrompidos e vegetações secas, criando sombras soberanas pelo chão duro e empoeirado. Maria contava as nuvens ralas enquanto caminhava por aquela estrada sem brandura, que levava à escola rural. Ela ensinava quase tudo para aqueles jovens - além de música e de português, falava de filosofia e ciências. No fim do dia voltava só novamente e seus passos exatos eram seguidos pelos corpúsculos da tarde até a linha da fronteira, onde, misteriosamente, paravam alguns segundos, como uma ataxia do tempo, deixando Maria anoitecer do outro lado, dentro de casa.
Guardadora de estrelas e com um sorriso de melopéia, Maria Calíope iluminava de sons e luzes toda a rua, moldando as noites de eventos atemporais e mimos em forma de iguarias como sonhos, rabanadas, esquecidos, nuvens e pudins cujas receitas foram trazidas pela avó da terra natal. Os visitantes chegavam com a noite e saíam ao amanhecer. Traziam notícias de acontecimentos notáveis e relatavam suas imprecisas vidas ao redor deste mundo singular. Dissolviam-se as madrugadas em palavras, ruídos, chás e doces. Os poucos moradores e vizinhos que viviam próximos àquela pequena casa de madeira avarandada nunca viram nada anômalo, exceto luzes de cores variadas e sentiam o cheiro dos doces portugueses.
A cozinha era o maior cômodo da casa: fogão de lenha e forno, latas cobertas com picumãs, onde guardava os cereais e biscoitos. Quatro cadeiras e mesa de madeira sempre coberta por singelas decorações de flores secas com fuligem e toalha xadrez. Por alguns anos, tempo da adversidade e mocidade, ela compensava a falta de afeto com delírios e doces, junto daqueles que chegavam com a noite.
Em dezembro de 1989, quando completou quarenta anos, nesta mesma noite recebeu uma visita fora do padrão, um espectro de aparência vã. Pasmada entre o medo e o desejo, se perdeu em fluídos e logo deixou o medo por uma paixão atemporal. . Ela o chamou de “Sem Forma” e o via através do espelho, que ficava ao lado da mesa na cozinha. Mulher madura e versada, amava com intensidade e havia resolvido problemas de solidão e conflitos. Instinto atávico de mãe, trouxe-lhe um filho que adotou na reserva indígena onde dava aulas. Sob os seus domínios de perfeição, o ardor dos sentimentos pelo menino e também pelo amante era de tal intensidade que lhe consentia extravagâncias utópicas. Suppé tinha aspecto exterior indígena, cabelos longos e inteligência musical simétrica, que lhe evocavam aspectos de felicidade, um legado de Maria Calíope ou da singularidade da sua mente.
Sombras de nuvens correm pelo chão formando algodões sépia sobre a fronteira. Flores brancas de mirtáceas rudemente pintadas com poeira montam sua guarda pelo caminho onde nada passa, a não ser cascavéis e, ocasionalmente, mensagens zumbindo pelos fios telegráficos. Suppé, em passos lorpa, segue rumo ao Paraguai é a primeira vez que ele arreda os pés do território de sua mãe. Então, aquela tarde – como um bicho - começou a ter pensamentos incessantes e, por mais de vinte minutos, sinapses elétricas salpicaram a paisagem que, castigada pelas descargas, incendiava os coqueiros torrando os ninhos de papagaios. O garoto não entendia nada sobre tempestades, sobretudo  elétricas, e continuou sua rota rumo ao Paraguai. E logo foi atingido por um daqueles estalos secos, que o jogou fora da estrada. Respiração arquejante, Suppé abre os olhos, vê nuvens negras que se movem, o fogo e os fios do telégrafo num céu surdo. Insiste em movimentar o corpo, perdera os movimentos, mas ainda ouve o coração batendo apressado dentro da cabeça que dói, latejante.
Maria Calíope, atônita, observa a tempestade de raios pela janela da casa. Sua mente excitada procura uma solução e lembra que possuía predisposição genética que contrariava a razão e as experiências vividas quando tinha três anos de idade e foi atingida por uma descarga elétrica de alta voltagem. Instantaneamente, ela precisava fazer uma viagem empírica pelo fio do telégrafo, achar Suppé e trazê-lo em segurança para casa.
 A mulher era uma criatura humana e estava condicionada a pensar no tempo como um rio que flui, segue sua rota e não volta. Agora, ela em desespero corria pela casa e pedia uma solução ao céu. E veio pela antena parabólica, que ficava sobre o telhado. Uma cabal corrente elétrica, como um projétil, incorporou seu corpo embrenhando-se pela tomada e fios da casa. Ponderada e analítica, sua mente precisa percorreu, em milésimos de segundo, toda aquela fronteira oolítica que queimava ao vento seco. A matemática mais uma vez foi a salvação, através da música de timbre cristalino que ela tocava pelos fios dos telégrafos. Suppé ouviu seu chamado, sua canção, como um ninar cujas notas eram tiradas dos fios acima do seu corpo, que respirava poeira e continuava inerte no solo.
Apesar da severa desordem dos músculos e de seu raciocínio, a música modulada foi decodificando em sua mente confusa o que havia ocorrido. Passos incertos, corpo magoado e com uma terrível dor de cabeça ele retorna para casa. A noite chegou e com ela também veio a ordem na fábula que lhes pertencia e assim, demasiados, os três viveram mais de mil noites extraordinárias, que contagiavam a paisagem revestindo-a de mistérios e dias ensolarados, onde as horas batiam lentamente no limiar da escuridão.

Epílogo

Maria Calíope foi professora por toda sua vida, que durou pouco. Acreditava que o alicerce do pensamento tinha início como o Big-Bang. Impelida à solidão, desenvolveu obesidade e diabete, que a levaram à morte. Na cozinha não havia espelho e sim fogão de lenha e forno, latas cobertas com picumãs onde guardava os cereais e biscoitos. Quatro cadeiras e mesa de madeira e um velho aparelho de televisão. Ali a mulher passava as noites comendo doces portugueses, assistindo a filmes antigos. Sozinha. Partiu para encontrar sua última ilusão no dia do seu aniversário de quarenta anos. Os olhos abertos e cravados no aparelho de televisão que, ligado, captava ecos do Big-Bang. Seu filho Suppé, que não era um índio, desapareceu um dia antes na fronteira do Brasil com o Paraguai. De resto nada existiu.

fim

2 comentários:

  1. Olá,

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  2. Você é um ser que faz encantamentos com as palavras, menino Arlindo!Deve ser um ente ainda desconhecido da Ciência . Um passarinho em transição...Um peixe em mutação...Um fauno enternecido de palavras...Sei lá .Mas, é isso - continue escrevendo pra fazer a gente feliz!

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