sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Uma história,quase,mágica - conto




Tarde de brasa em fogo, que queimava com cigarras ensandecidas. A noite era uma imensidão escura, salpicada pelas pálidas luzes que vinham das estrelas. Na madrugada, as teias de aranha viravam vidros nas pastagens urinadas pelo orvalho. E assim eram os dias daquele lugar. O mato tomava conta das casas e, na rua principal que findava na igreja, havia um beco que começou a mancar de uma perna. Foi justamente no dia em que Caranguejo chegou. Ele ganhou este apelido porque andava feito caranguejo quando perde uma perna. Era um sujeito que não tinha origem de nascimento, nem carteira, nem dente e tudo que o povo daquele lugar sabia sobre a pobre alma é que era bondoso e cheirava a flor de copo-de-leite – igual a morto. Ajudava no açougue, cortava lenha, levava recados e, às vezes, obrava no beco que mancava de uma perna.
O lugarejo incorporou o velho andarilho e, assim, foi por muitos anos. Caranguejo vivia nos fundos da carvoaria, lugar que sempre cuidou, onde escovava a boca e nunca trocou de roupas. Sempre a mesma calça, que ninguém descobriu ao certo que cor era.
Sabia-se que tinha mais de 80 anos e chegado ao norte da ignorância. Seu lugar preferido era o beco que mancava de uma perna, igual a ele. Criatura ordinária, carregava nos bolsos coisas sem utilidade - tampas de vidros, rolhas, papéis amassados e escritos, sem importância divina. Quando as sombras avançavam pela estrada, Caranguejo sentia êxtase de espantalho, corria pros roçados e cantava com voz de tenor.
Tudo era muito comum naquele lugar e as coisas só aconteciam nas noites de quinta-feira, inclusive o baile, para aquelas meninas anônimas que giravam pelo salão da igreja enquanto os mais velhos enfiavam pregos no escuro da noite. Dizem que serviam bolo de gengibre e suco de manga - eu nunca comi.
Um tempo depois veio viver no lugarejo um homem letrado de plantas, que fazia santidades com sementes. Leboulegard comprou uma propriedade desativada e construiu um grande viveiro de plantas exóticas. Ele era francês, tinha hábito de beber vinho tinto e comer coisas estranhas como lesmas, tripas e caracóis.
Logo passou a tarefa de separar semente para o Caranguejo. E, toda vez que uma manhã começava, lá descia homem rengo de uma perna rumo ao seu trabalho como separador de sementes.Com o olhar na fronteira do céu, que dava pra ver do seu quarto, ele fumava folha de bananeira enquanto enfiava coisinhas pelos bolsos da camisa antes de sair de casa. Na ocasião eu tinha 11 anos. Diversão pra um menino desta idade era fazer da palavra um brinquedo,pois isso facilitava meu trabalho, que era de mentir e inventar. Então, passei a cangar as tardinhas espionando o velho enquanto chupava manga e manuseava o pinto. Eu ficava sentado em cima daquele muro cariado por horas a fio. Lá eu anotava tudo.
Numa tarde, Caranguejo atravessou a rua principal e foi direto para o beco. Com a exuberância de quem sabia morrer, fechou a boca pras palavras e os olhos para o eterno. Seu último pedido era que fosse enterrado no fundo da carvoaria, lugar onde viveu por algum tempo. E assim foi. Lembro me que foi um dia muito importante da minha vida e do morto também.Todos os moradores estavam no velório. Leboulegard, que era seu patrão, disse que seria melhor banhar o defunto e tirar aquelas roupas que já tinham atingido grau de cera. Ninguém quis fazer tal coisa. Entre a excentricidade e o misticismo o velho andarilho viveu e morreu.
Numa das visitas que fiz ao túmulo de Caranguejo encontrei plantas, inúmeras plantas com pêlos nas folhas. Será que o velho virou planta, ou apenas um milagre normal? – poderia ser um esforço de poeta, ter virado planta!
A cidade inteira, um tanto erudita, preferiu um milagre. Eu, que amo as coisas sem prestígios, preferi sonhar que o homem virou planta. Leboulegard, que tinha os conhecimentos em desageros, afirmou que suas sementes de morangos tinham sumido e que o velho andarilho esqueceu-as nos bolsos da camisa.
fim

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