sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Sírius sua irmã morta - conto


Com um lápis desenhava numa folha de papel sobre uma mesa de madeira. Os olhos captavam as rachaduras na torre da igreja e nuvens. O vento sacudia a cortina e conduzia a canção do rádio junto com o cheiro dos pães por todo o quarto, que ficava sobre a padaria. Cama de solteiro, armário abarrotado de livros; nas paredes, vários cartazes de balés e antigas fotos de família. Tinha também uma coleção de discos de Mario Lanza, amava suas canções, sobretudo “Because you’re mine” – sempre que ouvia chorava, talvez por se lembrar de um amor que nunca teve.
Sírius gostava de desenhar paisagens e caminhos íngremes, mas o sustento vinha da dança, cujo palco era o salão de baile que ficava bem na fronteira do Brasil com o Paraguai. E, nas noites de sábado, era o apogeu quando vinham homens de toda a região à procura de diversão.
No amplo salão, feito com tábuas e piso de vermelhão, aquela moça de apenas 20 anos, e mais outras tantas, contribuíam para a alegria dos rapazes. Dançavam, dançavam e giravam ao compasso de velhas canções para viver.
Sírius nasceu numa gravanha perto daqui. Era a primeira de doze, todos homens e somente ela de mulher. Ela e sua irmã gêmea, que não chegou a nascer. Sua irmã havia desaparecido por completo no sexto mês da gestação, um grande mistério para sua mãe, que vivia naquele fim de mundo. Segundo a visão instigante de Sírius, ela ainda estava ali, presente em seu corpo. Havia se atrofiado na gestação e seu minúsculo cérebro ainda vivia dentro dela. E ambas eram diferentes: sua irmã morta tinha estranhos desejos. Sírius era o contrário, e até parecia que nunca tinha desejos, ela apenas dançava e tentava compreender a vida para ambas.
Disse ela, ilustrando em detalhes, que em volta de seu tálamo, no cérebro, ficava o complexo “R” - de réptil mesmo. Este lugar era a sede da agressividade, do ritual e nasceu quando nossos ancestrais eram répteis - talvez fosse esta parte a mais desenvolvida em sua irmã morta. Logo depois, o sistema límbico - e este sim era dos mamíferos - responsável por suas manifestações de sobrevivência no planeta. Por fim, o córtex cerebral, lugar onde nasceu à civilização, a arte e a compreensão – neste lugar onde a matéria se transforma em consciência.Sírius compreendia sobre o funcionamento do cérebro humano, portanto sofria de um mal. Atribuía às atitudes e gestos grotescos em manifestações de sua irmã morta.
Sírius tinha paixão pela sua parte “R”, que dizia ter duas, e numa noite desceu aquelas escadas antigas do quarto que ficava sobre a padaria, caminhou pela praça da igreja com o vestido rodado, comprou pipocas e foi trabalhar no salão de baile.Sábado cheio de gritos de crianças, estrelas e músicas no autofalante da igreja. Sírius estava feliz, como sempre, e sua estrutura de pensamento era comum ante à vida, exceto pelo fato da menina ter desejos de réptil e coisas sem explicações. Ela trabalhou, dançou e, num determinado momento, convidou seu par para um passeio na madrugada.
As ruas já estavam desertas; no céu, por ironia, navegava a constelação de Cão Maior e a estrela Sírius. Eles andavam em passos lentos - uma no céu outra no chão. O coração de Sírius batia acelerado, era sua pulsação que levava fluidos conhecidos apenas por ela. Ruas depois, seus olhos estavam totalmente negros, já não tinha fala e a delicadeza da bailarina se transformara em gestos exaltados de desejo e fúria. E, como uma fera, ela dilacerou e comeu a genitália do jovem enquanto sentia êxtases primitivos. Gritava e olhava para o céu, feito uma fêmea selvagem e sua vítima se esvaía em sangue num corredor escuro.
O pensamento é algo complexo, composto de impulsos eletroquímicos, cujo exemplo pode ser esta história em todos os seus aspectos. Portanto, o pensamento é apenas uma das possibilidades infinitas que a mente humana é capaz de forjar. Esta intrincada maravilha, o cérebro, pulsa, palpita e segue o complexo padrão do Universo físico. Então, como seria o “tear encantado” de Sírius e sua irmã morta...?

fim




1 comentários:

  1. Olá!

    Seu blog é muito interessante. Resolvi visitá-lo quando de sua passagem pelo meu blog: é a internet encurtando distâncias, rompendo fronteiras, abrindo novos caminhos... Agradeço por seu contato e espero que, dessa forma, possamos trocar muitas informações.

    Um grande abraço!

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