quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O homem da lua - conto



Depois de ter me incorporado como um elétron da tridimensionalidade, passei a perpetuar as tardinhas que desmanchavam cores quentes no horizonte. Sentado ali, na beira daquele lago, fazendo desenhos na água, eu compreendia tudo. As nuances que derretiam no espaço eram asas de borboletas que recortavam o ar. Eu envelhecia feito erva cidreira e as tardes eram o prólogo do que viria.
Então, coloquei meu traje azul de mangas leves, porque o que chegou foi a noite e, com ela, não vieram só estrelas e grilos, mas um um vento frio que acumulou folhas na varanda de minha casa; veio, enfim, uma absoluta certeza de que não haverá mais invernos, nem as andorinhas e o cheiro dos tomilhos na beira do lago. A canção no juke-box nunca mais será ouvida, as imagens desaparecerão, então, esquecerei o gosto da comida e os vermes vão beber cabernet sauvignon em minha boca.
Logo depois veio a aurora, rompendo melancolicamente a manhã - eu ainda estava acordado. Caminho em volta de minha casa, há nuvens calmas no céu, ouço o palavreado das andorinhas e vejo a tristeza das árvores de tangerina diante do dia que irá morrer comigo.
Maria chegou a cavalo e fez fogo cedo. Havia café e bolo de fubá sobre a mesa da cozinha e, na parede, um relógio cujos ponteiros haviam enferrujado dentro dele; bebi meu último café. O dia abriu em mim. As emoções descritas não foram sentidas naturalmente, usei meios artificiais para senti-las. Eu nunca senti tais emoções, verdadeiramente, como humano.
O mistério da vida me causa a mais forte emoção. Tenho grande amor pela minha espécie, mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não sinto falta deles porque sou profundamente solitário. Deixo este tipo de prazer aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo. Hoje, vivo sozinho na Lua - talvez eu seja o resquício de uma fera tentando entender sonhos de deuses.
Nasci em 2.048, no “Mar da Tranqüilidade” – onde o homem pisou pela primeira vez. Um pouco antes, as agências espaciais Nasa, Esa e China resolveram construir um grande laboratório fora da Terra. A Lua foi escolhida e meu pai, um jovem cientista, foi um dos pioneiros. Na mesma turma havia uma bela exobiologista, que era minha mãe e, juntos com mais 55 pessoas, formaram um grupo de cientistas fora do planeta Terra.
Meus pais viveram na Lua por cinco anos. Nasci no terceiro e, quando eles voltaram para a Terra, eu ainda era uma criança. Fui afetado e moldado fora deste planeta, por isso tenho as afeições alteradas, ou seja, diferente de outros humanos. Sou o primeiro homem a ter nascido na Lua. Até os 25 anos morei num lugar da Europa onde aprofundei os meus conhecimentos em gravidade. Comecei onde um alemão parou – no século 20, um cientista chamado Albert Einstein descobriu que a gravidade, basicamente, era a dobra no espaço. A teoria foi provada por ele mesmo e a partir dela eu busquei meu caminho. Inscrevi-me no projeto e voltei para a Lua, levei na bagagem um chip com memória de uma moça que conheci – Artificial foi o meu único amor.
O projeto durou por mais seis anos e todos os cientistas voltaram para a Terra. Resolvi ficar e provei para as agências que era preciso, eu tinha nascido ali, eu era um cidadão extraterrestre, apesar do DNA humano.
E, solitariamente, eu vivi dentro daquele vasto laboratório, não havia dias nem noites, havia estrelas e aquele planeta azul girando ora minguante, ora cheio e, às vezes, recebia uma visita dos meus pais via ondas de rádio.
O grande simulador continha toda a história da humanidade e sua memória era na Terra, mas do espaço eu interagia e vivia todas as emoções humanas.
Enternecido pelo tempo, comecei a ter medo de morrer sozinho. A Lua estava um pouco mais próxima da Terra, mas havia muito lixo no espaço e o laboratório sofria ação deste material...(mensagem final)

Oceana caminha até o refeitório da nave, ela está com água nos olhos e com a voz fragmentada. Ela diz para os companheiros de bordo: “Olhem, achei este disco e nele uma gravação antiga... É sobre um homem que nasceu e viveu na Lua em outro tempo”. Oceana vai até a janela e fica com o olhar perdido no horizonte de eventos – ela mal consegue falar sobre a antiga canção que também está na memória. A nave, suavemente, segue rumo à Terra com os restos do laboratório.




fim

2 comentários:

  1. Amigão, um prazer ver você incendiando nossas mentes com sua prosa tão proficiente. Serei leitor assíduo, como o era no Overmudno.
    abração.

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  2. ... ...traigo
    sangre
    de
    la
    tarde
    herida
    en
    la
    mano
    y
    una
    vela
    de
    mi
    corazon
    para
    invitarte
    y
    darte
    este
    alma
    que
    viene
    para
    compartir
    contigo
    tu
    bello
    blog
    con
    un
    ramillete
    de
    oro
    y
    claveles
    dentro...


    desde mis
    HORAS ROTAS
    Y AULA DE PAZ


    TE SIGO TU BLOG:
    DA DOMESTICA




    CON saludos de la luna al
    reflejarse en el mar de la
    poesia ...


    AFECTUOSAMENTE
    DA DOMESTICA




    jose
    ramon...

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