sábado, 31 de outubro de 2009

Céu líquido - conto


A oeste de Mato Grosso do Sul os morros elevam escarpados e há vales com matas cerradas nas quais nunca um ser humano esteve. Existe uma vegetação atípica, que margeia a única estrada de areia onde árvores se inclinam fantasticamente e finos regatos escorrem do alto das pedras. Ao longo dessa estranha estrada de areias douradas há uma dezena de fazendas, com casinhas feitas de madeira, onde o mato de São Caetano percorre as cercas e paredes, dando a impressão de que estão todas abandonadas e que ainda guardam antigos segredos.
Os jovens moradores sempre vão embora. Os velhos continuam no lugar. Esta região não é boa para a imaginação e também não traz sonhos repousantes à noite. E, talvez por isso, este vale quase nunca é visitado por alguém. Outrora havia uma outra estrada, que vinha sobre as colinas e se encontrava com a estrada das areias de ouro. E, justamente neste encontro, formava um pequeno lago onde patos selvagens viviam.
 Hoje, é apenas um pavoroso pântano, repleto de jacarés, cobras, mosquitos e cercado por morros, onde o céu alcança em tom sépia, dando a impressão que ali estão enterrados segredos dos dias estranhos que se passaram. O silêncio era excessivo nas noites que começavam mais cedo e, às vezes, se ouviam uivos de lobos ao longe, ou melhor, ecos nas colinas.
1.900 e a guerra do Paraguai havia terminado. Quase todas as famílias que viviam ali foram embora e algumas outras chegaram. Ao lado direito do velho pântano arenoso tinha um enorme e retorcido carvalho seco, que balançava sinistramente ao vento. Segundo os moradores, aquele carvalho balançava mesmo sem vento algum. Atrás dele ficava a fazenda de Ramona, uma refugiada da guerra que ali se aportou. Ela nunca pensou em deixar aquele vale estranho. Aquele lugar sinistro combinava com a aparência de Ramona, sempre carrancuda - seus cabelos longos e brancos davam uma visão surrealista de sua figura atarracada mestiça com chiquitanos (índios bolivianos). Contudo, era uma espécie de matriarca da pequena comunidade.
Foi no quinto dia do mês de agosto que o horror eclodiu. A chuva despencou por toda tarde. No início da noite haviam ruídos estranhos e os cães latiram freneticamente. A madrugada foi invadida por um odor insólito. A chuva passou era 6 horas. Laguna, o ajudante contratado por Ramona para trabalhar na fazenda, voltou numa correria alucinada de sua jornada matinal à estrada de areia com as vacas. Ele estava quase convulsionando de pavor quando entrou, esbarrando em tudo que havia na cozinha, enquanto diante do fogão Ramona ficou a olhar sem palavras. Laguna tentou balbuciar sua história.
- Os anjos, os anjos, eles estão morrendo! Ramona não espera a narração, uma vez que o rapaz tem problemas na fala quando fica nervoso. Saiu em disparada, seguida por Laguna, e foram até a casa do velho Barbalho, um sujeito magro que criava porcos e tinha os dentes enormes de cor ocre. O velho Barbalho já passava dos 100 anos e vivia com sua mulher, uma negra fugitiva de um quilombo, conhecida por Abá. Eram os vizinhos mais próximos.
Os quatros saíram em direção à estrada de areia. Ninguém disse uma palavra - o céu estava escuro, corriam baixas nuvens apesar de ainda ser manhã. Dois quilômetros para a frente da fazenda de Ramona, onde passava a estrada velha, tinha um lugar que os antigos moradores denominavam “mesa dos anjos”, que para Ramona soava um tanto excêntrico e teatral - ela relutava contra as crendices daqueles vizinhos.
Mas, de certa forma, a “mesa dos anjos” guardava mistérios da terra primitiva. Não havia vegetação de espécie alguma numa extensão de cinco quilômetros; apenas cinzas ou uma poeira fina cinzenta que nenhum vento parecia soprar. As árvores próximas eram doentias, mirradas e havia muitos troncos pelo chão.
-Está lá - disse Laguna, apontando o dedo em direção à “mesa dos anjos”. O velho Barbalho arregalou os olhos, sempre amarelados, puxou a mulher pela mão e gritou.- Isso é coisa dos traficantes!
Todos olharam com espanto para seis corpos desossados e sem cabeça no centro da ravina seca. Tinham aparência humana, mas eram criaturas aladas. Os alucins, como ficaram conhecidos, viviam ali desde muito antes. Ramona e seus vizinhos preservavam o segredo de mantê-los afastados da civilização, uma vez que estavam em extinção. Estes seres tinham como uma evolução asas, que na fase adulta atingiam até 2 metros de envergadura. Eram dóceis e tinham os dois sexos numa só criatura. Sua procriação era evoluída e controlada, uma vez que os Alucins estavam fadados a um triste fim, levados pela ganância de alguns homens. A carne e as vísceras eram uma espécie de droga alucinógena, complexa e potente para seres humanos que pagavam altos valores por um pedacinho desses anjos...
- foram os traficantes sim. Agora estão extintos! – disse Ramona chorando.
O velho Barbalho, sua mulher e Laguna ficaram de joelhos em volta dos corpos desossados, sem cabeça e sem asas, numa prece em transe.

fim

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