quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Matança de porcos - conto


Sob o sol vermelho e ardente, as folhas das árvores ficaram azuis. Havia um túnel formado por mangueiras, cujos frutos alimentavam os cardumes de baleias que voavam rumo aos mares do norte. A terra tinha aparência do chão do planeta Vênus, vermelho e sépia. Adiante do matadouro, numa das extremidades das mangueiras, havia um grande rio que levava o sangue dos porcos abatidos. Ao lado, um enorme bosque onde moravam Corah e sua família.O abatedouro de porcos alimentava a população daquele lugar, onde as perspectivas familiares de espaço e tempo eram estranhas. Tudo escapava às regras, inclusive a luz, que viajava a uma velocidade de 80 quilômetros por hora, fugindo a uma lei natural que é de 300 mil quilômetros por segundo. Então, o tempo também caminhava lento e todos os relógios eram muito vagarosos. As bicicletas eram os veículos mais rápidos e a velocidade dependia de cada um. Na ampla casa de pedra onde Corah vivia com os pais havia inúmeros relógios mecânicos, biológicos e estacionários.Ela estudava no vilarejo, onde a população não passava de cinco mil pessoas. A região era belíssima, e quando chegava o outono os campos ficavam com um azul profundo, que parecia líquido. E todas as tardes, ante à revoada de baleias, ouvia-se um coro de gritos que ecoava por aquele descomunal céu em rosa: eram os porcos sendo mortos.
Olhos amendoados, sobrancelhas intensas que combinavam com o carmim da boca grossa e nariz imponente. Corah nascera em dezembro e quando chegou aos 12 ganhou uma bicicleta toda violeta e rosa. A estrada entre sua casa e a escola era feita de pedras escuras, lisas e as voltas do vilarejo seriam muito mais rápidas e prazerosas.Assim, numa manhã, quando voltava da aula, a menina pedalou o mais rápido que pôde. Foi na descida perto da ponte que ela chegou muito próxima da velocidade da luz naquele lugar. Como o tempo é mais lento próximo à velocidade da luz, Corah experimentou a relatividade especial - descobriu que suas partículas atômicas não envelheciam em tal velocidade.Em cinco minutos a estrada virou um buraco de minhoca, um túnel, ela chegou em casa e o lugar já não era o mesmo. As paredes de pedras foram substituídas por tijolos e madeiras. Havia vários vizinhos e crianças por todos os lados. Ela entrou normalmente em casa. Sua mãe preparava o almoço de rotina para o pai, que estava no matadouro de porcos. Agora, na casa, havia um outro quarto que era de Samuel, o irmão que até cinco minutos atrás não existia. Corah caminhou pela casa, descobriu que o tempo havia passado e ela não envelhecera. Mas as folhas estavam amarelando, ainda se ouvia os gritos dos porcos morrendo e as baleias se confinaram em mares profundos.A menina de pernas longas ficou extasiada pelas leis naturais do Universo e resolveu estudar sobre as partículas atômicas e suas vidas diante de paradoxos como este. E numa outra manhã, de volta para casa, Corah e Samuel desceram juntos numa mesma bicicleta e se depararam novamente com a dilatação do tempo. Em cinco minutos a estrada já estava pavimentada, o bosque havia desaparecido, assim como o rio e o túnel de mangueiras. A cidade havia aumentado, o céu já não era mais vermelho, rosa e sim azul claro, onde aves e nuvens voavam. As folhas ficaram verdes, o matadouro de porcos dobrou suas dimensões e ganhou uma chaminé, que chegava nas nuvens.
Corah e o irmão vagaram pelo apartamento vazio e repleto de conforto. Seus pais haviam morrido há muitos anos. Em cinco minutos eles mudaram suas vidas para sempre.Mesmo assim, o tempo passou e eles continuaram a viver naquele lugar extraordinário, como duas crianças que eram e que enganavam o tempo.
“A relatividade especial é uma lei natural, que nos alenta o sonho de viajar para as estrelas...”, gritou Corah, diante da sala de aula lotada de adultos. Era um outro tempo e a menina de apenas 12 anos costurava o espaço e o tempo fazendo um enorme lençol bordado com estrelas, sonhos e possibilidades. O que aquelas crianças não sabiam é que as implacáveis forças da natureza eram indiferentes para sonhos e anseios de criaturas como elas.
E nas pedaladas dos irmãos Corah e Samuel, o futuro chegou em novos 5 minutos, invadindo os campos de ruas e estradas, cercas, edifícios e gente. Foi um horror, porque com o futuro chegou a destruição e o previsto fim. Passaram-se alguns milhões de anos.O Sol estava inchando, morrendo, já havia engolido Mercúrio, Vênus e cobria o céu da Terra – uma estrela nos últimos estertores, uma gigante vermelha.
Naquela manhã modorrenta, quando eles chegaram, o céu se abriu deixando a atmosfera escapar para o espaço, os oceanos que cobriam a Terra se evaporaram e o planeta foi vorazmente engolido por sua estrela, que outrora havia lhe dado todas as vidas. E, como aqueles porcos diante do medo, eles gritaram, todos gritaram e seus gritos esvaíram-se para o vazio. Porém, não havia mais ninguém para ouvi-los.A luz voltou a sua rotina e velocidade. Um monstro, um buraco negro de proporções gigantescas transformou tudo em energia. No lugar onde viveu o Sol e seus filhos sobraram uma mortalha de gases e restos de mundos que vagariam pela escuridão. Átomos de carbono que também chegarão à estrela, um dia, num outro lugar do Universo. Uma supernova fênix.

fim

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