Era o primeiro dia do ano de 1.951. O porto de Santos estava lotado de pessoas que desembarcaram de um navio vindo da Turquia. Theopoulous segurava firme nas mãos de seu pai, suava e estava pálido, numa espécie de transe. Ele olhava para o alto e via a desordem das gaivotas e ouvia o emaranhado de sons que vinha das águas e das vozes humanas - de uma língua que nada entendia. Tinha apenas oito anos e, junto com os pais, deixara a Grécia, sua terra natal. A mãe morrera na longa viagem; o pai, agora, era seu elo com este mundo novo e estranho.
Uma semana depois atravessaram de trem o sul do pantanal e foram parar na cidade de Corumbá, fronteira com a Bolívia – lugar onde vivia um patrício. Pelas barrancas do rio Paraguai, pai e filho foram se ajeitando. Moravam num barco velho e rústico, que também servia de transporte para as viagens que faziam como mascates. Theopoulous e seu pai vendiam argola para laço, tecidos, chapéus, ferramentas, cordas, fumo, álcool, vidros de arnica, biscoitos e mil outras coisinhas que os nativos do litoral central consumiam. Logo eles ficaram conhecidos, desde as terras dos índios Guaicurus, guatós, até a dos Paiaguás.
Dois anos se passaram. Theopoulous e seu pai aprenderam um pouco de cada coisa, inclusive a língua portuguesa, e também a tupi-guarani. Durante as viagens, o garoto carregava no olhar uma espécie de torpor, então seus olhos engoliam a paisagem, que era formada pelo azul do céu e também pelas águas que refletiam o mesmo azul e o mato que seguia o rio. A noite tinha pérolas espalhadas no espaço e, nas águas, as luzes das estrelas se misturavam com as vegetações de camalotes – criando borrões de luzes esverdeadas.
Neste universo poderoso, que principia e se propaga, há uma eternidade de coisas acontecendo em instantes contínuos no horizonte de eventos. E, numa noite igual a estas, desceu um rude temporal e a embarcação se desmanchou nas águas do rio Paraguai. As mercadorias foram engolidas por um redemoinho que levou o resto do barco e também o pai do garoto. Theopoulous acordou muito além da fronteira do Paraguai, em terras indígenas no Chaco. Fora salvo pelos Guaicurus e levado para uma aldeia bem longe do rio, onde ele se anonimou entre crianças, cachorros e uma vida inimaginável.
Guaraná foi o nome escolhido pra esquecer o gosto da civilização, sua cultura, costumes e o nome grego que enterrara numa curva daquele imenso rio. Foi adotado pelos últimos membros de uma nação quase extinta. E, aos dez anos de idade, ele coordenava o trabalho dos meninos da aldeia, que era aprisionar nuvens em cima do chapadão. Como uma ave aprendeu a olhar, trançava madeiras com Caranchos, gostava de Caburés, Tesourinhas, Cabeças-secas e aprendia coisas com Emas. As nuvens que os meninos aprisionavam eram torcidas e viravam água, que servia para beber no período da seca, que se prolongava por quase seis meses todos os anos. Guaraná era chamado de baquara - o que sabe das coisas, esperto – apelido dado pelos meninos Guaicurus.
Épocas de chuvas e secas vieram e foram, os meninos se tornaram rapazes, guerreiros e exímios cavaleiros. Guaraná se transformou num caçador forte de pele escura para se proteger do sol. Tinha sua própria palhoça e o respeito dos mais velhos de toda a tribo. Matava onça com zagaia, porco monteiro, cateto pegava na corrida e sobre um cavalo acertava qualquer coisa que se movesse – era um legítimo Guaicuru. Passaram-se algumas monções e Guaraná conheceu Aondê, mulher da tribo dos Paiaguás, aliados dos Guaicurus, cujos poucos remanescentes viviam numa reserva que ficava em outra região do pantanal. Um lugar pouco extenso, cercado de chapadões, com entrada natural apenas de um lado – conhecido por Covanca do índio. Bela e forte, a menina tinha apenas doze anos. Casaram-se e tiveram dois filhos. Guaraná cavaleiro e caçador Guaicuru passou a chefiar a pequena reserva Paiaguás, que ficava ao norte do pantanal sul. A aldeia era formada por velhos, crianças e cachorros. Muitas vezes faltavam alimento e água para beber, devido à seca que se arrastava por meses a fio.
Sublevado pela noite árida, Guaraná apoiou seu rosto no espaço noturno, como se na janela da própria palhoça, lugar no qual Aondê e seus filhos dormiam. Saiu cheio de estrelas, arma em punho e andou léguas por caminhos onde nunca havia passado. Precisava caçar em quantidade para alimentar toda a aldeia. O dia amanhecia, era um final de setembro, e ralas nuvens apareciam num céu pálido de horizonte avermelhado. Subitamente, um vulto felino e faminto salta sobre o cavalo que, assustado, prende a perna do caçador num tronco de árvore seca. Cavalo e cavaleiro despencam no solo árido. Já no chão, o guerreiro segura a zagaia com a ponta virada para o céu. O animal sem sorte salta sobre a lança de madeira, que lhe rasga o coração, caindo pesadamente sobre as suas duas pernas.
A onça pintada estava morta, o cavalo quebrou uma das patas e Guaraná havia quebrado os dois pés. Por mais de seis horas os três ficaram esticados ao relento daquela fornalha que derretia os horizontes. Guaraná acordou com os lábios arrebentados, os urubus faziam círculos num céu morno e vazio, seu cavalo respirava pesadamente e moscas faziam zumbidos sobre o sangue seco da onça morta. Arrastou-se até o cavalo agonizante e, num golpe certeiro, tirou-lhe o sofrimento com a mesma zagaia.
O dia terminou com rajadas de ventos que fizeram a paisagem mudar. Em pouco tempo o céu estava pesado, carregado de nuvens plúmbeas, que pareciam querer afogar aquela terra rachada e seca. Caíram gotas grossas e esparsas, as lavas-bundas e os pássaros entraram em frenesi e Guaraná se arrastou com sua dor por vários quilômetros noite adentro - como um caimã à procura de corixo. A chuva passou e na madrugada o céu estava transbordante de estrelas que brilhavam acima da sua angústia - ele se arrastava e tentava, em vão, tirar alguma força daqueles astros distantes, de modo que o firmamento se inclinasse e se confundisse com o seu árduo destino.
Então, pela primeira vez, ele se recordou da mãe que ficara numa sepultura em mar além, também das águas do Mediterrâneo e dos campos da Turquia, onde nada deu certo. Recordou da ilha de Santorini na Grécia, lugar onde nasceu e viveu por um breve período. Ao fim das lembranças veio à tona um vocabulário desconhecido naquela região e que ecoou como um lamento, até que os primeiros raios da manhã atravessaram seu corpo, descumprindo regras e normas da natureza.
Guaraná parecia ter acordado de um transe ou sonho noturno. Estava diante de uma enorme cidade, feita de barro e bosta, onde moravam milhões de cupins. Nas sombras daqueles morros, seu corpo cansado e sem forças adormece pesadamente. A chuva cai novamente em abundância por todo o dia e noite. Na alvorada, Guaraná consegue aplacar a dor física: aumentara a sensibilidade, mas perdera os movimentos do corpo, que se encontrava envolto numa manta de lama fabricada pelas operárias dos cupins; seus ouvidos captavam a radiação cósmica de fundo e ondas eletromagnéticas. O coração ficara rengo e havia um gosto de metal na sua boca, por onde cupins entravam e saíam.
Era aurora, úmida angustiante, bela, cheia de luzes nos formigueiros e o cérebro daquele homem entrara em colapso. Theopoulous Guaraná sabia que seu universo era finito até ali, como ser humano, mas sem limites no tempo imaginário. Uma bola de fogo ficou suspensa a meio metro do chão. Do seu corpo separaram-se os átomos, cujos núcleos se decompuseram em dois, liberando energia. Isso também ocorreu com um inseto, era uma fissão nuclear em andamento, que culminou com uma fusão nuclear espetacular, na qual uma estranha e forte força mantinha unidos os novos átomos. Um pouco antes do amanhecer, aquela energia virara um cupim com asas na fase adulta, pronto para criar uma nova colônia.
O homem grego se transformara em cupim, seu pequeno cérebro não compreendia nada, a visão era ampliada e deturpada, os sons eram só zumbidos e o pantanal era um planeta distante que seus olhos tentavam decifrar. Leve e sem rosto, perdera o compasso voando sem rumo para cima e para baixo. Depois pousou sobre um formigueiro e ali ficou imaginando o que seria aquela infinita curvatura de impassibilidade! Terminava naquele instante a lógica de suas conjecturas humanas. No quinto dia, Aondê e seus filhos alcançaram aquela cidade de cupins, que voavam loucamente por todo o vale. Nem vestígios do marido foram encontrados. A mulher segurou nas mãos dos meninos, sentaram-se sobre uma pedra e ficaram até o anoitecer olhando os tamanduás devorarem os cupins com asas, num banquete alucinado.
fim
Guaicuru – tribo indígena que vivia no estado de Mato Grosso e também no Paraguai. Eram exímios cavaleiros e guerreiros. Os Guaicurus eram aliados aos Paiaguás contra os portugueses, eles ofereceram grande resistência à povoação do Pantanal mato-grossense. Um tratado de paz em 1791 os declara súditos da coroa portuguesa. A partir do século XVIII, chamou-se guaicuru todo os indígenas do Chaco que compartilhavam sua língua.
Paiaguás hoje extinto, vivia no Pantanal quando os portugueses chegaram na região. Juntos com os Guaicurus travaram batalhas, matando muitos portugueses. Foram perseguidos e aos poucos exterminados, não existindo atualmente nenhum registro de descendentes.
Zagaia - uma arma feita com madeira. Espécie de lança usada para escorar onça.
Fissão nuclear - quando um núcleo se decompõe em dois ou mais núcleos menores, liberando energia.
Fusão nuclear - Quando dois núcleos se colidem para formar um núcleo maior e mais pesado.
Força forte - Mantém os quarks unidos para formar prótons e nêutrons – estas formam o núcleo atômico.
Radiação cósmica de fundo – luz emitida quando o Universo era apenas um bebe. Surge como microondas e captadas como zumbidos.(pode ser captada na televisão).
Ondas eletromagnéticas - Oscilações num campo elétrico por ondas que viajam na velocidade da luz. – ultravioleta, luz branca, ondas de rádio e raio x .
Lava-bunda - libélula

0 comentários:
Postar um comentário