Assim eram todas as noites na vida de Clorofila. Contar estrelas deitada sobre a grama e tecer histórias para ela mesma. Também colecionava céu e paixão por sinfonias em adágio. Era uma menina de olhos amendoados, feito olhos de bugre, pernas longas, grossas e trocou os vestidos desgastados por calças curtas de menino. Tinha aparência misteriosa e erudita - apesar da pouca idade - fazia confidências sexuais com árvores e, devido o gosto por música, aprendeu a tocar tuba.O lugar onde Clorofila morava com os avós era repleto de seres anônimos, exceto o rio, que ficava no fundo da lavoura de melões, onde ela se banhava nua. Seu avô, cujo nome de batismo era Butrus, quis ser chamado Pedro depois que chegou da Arábia. Era um homem altruísta, que adotou a paisagem do lugar e sempre dizia: “O plantio é opcional, mas a colheita é obrigatória. Por isso, tenha cuidado com o que planta!”. Usava barrete e um poncho de sarja para se proteger do sol. Seu longo cabelo e a barba esvoaçante tinham uma tonalidade vermelha, intensa e terrível. Eram de uma incrível profusão.Ele voltava da lavoura quando o horizonte amolecia e também tocava tuba. Ancha, avó de Clorofila, tinha as afeições de índio. Nascera do outro lado do rio - numa aldeia de Chiquitanos. Mesmo não sabendo ler nem escrever musica, fazia maravilhas com mandioca, milho e batata doce. Autodidata em flauta de bambu e com muita habilidade no tear da sarja, fazia calcinhas com sacos de açúcar alvejados - assim Clorofila ficou doce na infância. Ancha era uma mulher inexplorada, cujo olhar sabia mais que ela própria. E assim, isolados do abandono, eles faziam da vida tudo em alegro e andante. A cozinha ampla, com utensílios domésticos, muitos quadros de natureza morta e alguns metais de orquestra como trombone e bombardino trazidos da terra natal do avô. Sobre a mesa, queijo e sopa de cebolas. Era verão e Pedro disse para as mulheres que, naquela noite, os três teriam que virar os melões na roça. Clorofila pegou sua tuba e perguntou para o avô o que eles iriam tocar. “Opus 364”, disse o avô. “Vou com o bombardino e Ancha faz a flauta de bambu. Também leve a trompa porque você poderá ensinar algumas notas para o novo espantalho da plantação”. Noite adentro, se ouvia “Donde florecen los limones” com uma trompa desentoada – enquanto viravam melões. Foi também nesta noite, e com esta valsa, que Clorofila descobriu o amor. Era um espantalho sem muitos atrativos, exceto pela cabeça, que poderia ser trocada de acordo com as plantações - ora abóbora, melancias ou melões. Só a menina e os vaga-lumes compreendiam sua fala, mas ele tinha o conhecimento nato das leis naturais. Clorofila e o espantalho se amaram em noites de lua cheia com melancias, noites escuras de melões ou abóboras, mas sempre iluminados pelo luar verde dos vaga-lumes. Assim foi por algum tempo. Ela o ensinou a ler música e, numa noite sem vaga-lumes, a menina tirou a calcinha feita de saco de açúcar para o espantalho. Neste ato nasceu o compromisso de ficarem juntos até o fim. Clorofila compôs uma sinfonia baseada em sua coleção de céu e iniciou uma plantação de lambaris de rabos azuis, que consistia em deixar a natureza fazer tudo. Bastou ela espalhar um boato que, lambaris com qualquer vestígio de azul em seu rabo, que fosse pescado ou capturado, teria que ser devolvido, pois era venenoso.Passaram-se alguns verões e a menina, que nunca havia sentido dor, exceto com o desaparecimento dos avós, perdeu um pedaço do coração ao ver seu único e verdadeiro amor partir numa lufada de vento sem alma. Foi uma tarde imensa, de tormento, trovoadas e águas, que ficou gravada na memória. O mesmo vendaval secou as suas lágrimas - era uma mulher e ensinou tudo que sabia sobre plantações e sinfonias para suas filhas.Berenice, que tocava tuba igual ao bisavô e tinha uma cabeleira imensa, ajudava na plantação de milho. A outra tinha habilidade no tear e fazia delícias com açúcar e cacau - era bela como o amanhecer e, por isso, ganhou o nome de Aurora - tocava flauta e sabia cantar. Al Nair, a menorzinha, era parecida com o pai - introduziu a harpa e foi ela que compôs uma rapsódia sobre os lambaris dos rabos azuis.O tempo ficou enferrujado dentro de um relógio no quarto de Clorofila. Claro que isso é apenas uma licença poética, pois o tempo é implacável e eterno, basta olhar as coisas que ele constrói e destrói, compreenderá que o tempo é um deus. E como tudo, aquelas plantações de sinfonias e frutos também se transformaram em outras e outras. Berenice, Aurora e Al Nair fazem solos sob a regência de Clorofila. Os lambaris de rabos azuis são comuns pelos rios da região. Todo mundo sabe disso.

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