quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A casa amarela da rua rubra - conto

As casas eram mudas, assombradas e todas brancas, exceto a do fim da rua, de cor amarela, com jardim de flores purpúreas, que matizavam as manhãs. As calçadas eram feitas com tijolos avermelhados como ferrugem. Seguia enfileirada, do outro lado da rua, uma centena de árvores de acácias vermelhas, que deixava tudo rubro de nuances incertas, que variavam conforme o sol mexia e a terra andava. As cores nasciam com o dia e, à noite, os gatos perambulavam pelos telhados de cor néon à procura da Lua. Os cachorros, que eram só três - Caronte, Fobos e Deimos - trocavam confidências e uivos para a mesma lua refletida nas poças d’água. Havia um poste cuja luz clareava o jardim e a janela frontal da casa amarela, onde ficava o quarto de Mimas, a mais nova das três mulheres que ali moravam; era uma menina de nove anos, cabelos avermelhados, sardas por todo corpo e olhos acinzentados. Tinha um grande amigo que sofria de depressão, um peixinho corcoroca que vivia no aquário em seu quarto. Ela caminhava pela vizinhança da rua rubra em saltos e passos de balé – se imaginava dançando o Lago dos Cisnes pelas calçadas. Ajudava as pessoas e sonhava em desinfantilizar a lógica da sua avó, da mãe e de todos os moradores da rua rubra.Carme, a mãe de Mimas, fazia doces ajudada por Europa, à avó. As duas mulheres misturavam açúcares, essências, clara em neve ao ponto, especiarias e teciam o dia como um vidro mole; depois, deixavam os docinhos sobre um girau de madeira e ficavam a olhar a noite passar pela janela dos quartos. Nas madrugadas, Carme dizia ter encontros com a alma de Oberon, seu marido e pai de Mimas. Europa tinha mais de 60 anos. Ávida, possuía uma cabeleira de cometa, tocava harpa de som doce e polcas que deixavam as tardes como que suspensas na vermelhidão carmesim da poeira. E como todos os moradores da rua rubra, Europa também via fantasmas e assombrações. As três mulheres que viviam na casa amarela, iluminada e com um jardim purpúreo, eram diferentes dos outros moradores da rua rubra; principalmente Mimas, que tinha uma visão perpendicular às coisas do mundo. Ela compreendia porque aquela rua era assombrada, não só pelas longas sombras das acácias vermelhas, mas por um pavor motivado por encontros ou aparições imaginárias de coisas sobrenaturais que habitavam na mente de seus vizinhos.Às vezes, Mimas se perguntava: aquela gente da rua rubra teria mesmo existido? Embora fosse muito jovem, Mimas entendia o tratado da natureza e convenceu Carme de que a causa inexplicável das aparições de seu pai, por exemplo, era apenas uma peça pregada pela mente, influenciada por emoções guardadas. Oberon sempre aparecia de terno branco e chapéu de feltro cinza, fato que contrariava a lógica, uma vez que roupas e acessórios não poderiam virar fantasmas. Se fosse possível um evento dessa natureza, talvez, muito talvez, fosse uma centelha de energia sem forma, mas somente de coisas vivas. A menina da casa amarela ficou conhecida e festejada por todos os moradores da rua rubra. Dançava balé pelas calçadas, vendia os doces feitos pela mãe e avó, também curava ignorância e espantava assombrações.Numa noite ela chorou ao voltar para casa. No aquário, um vulto rígido de animal cinza flutuava sem vida. O peixe corcoroca morreu afogado. Mimas se emocionou pela falta que o pequeno corcoroca faria em sua vida, ela o enterrou no jardim purpúreo e iluminado da casa.
Miranda era a vizinha mais próxima, tinha oito gatos: Erriapo, o patriarca que vagava sobre os telhados em companhia de Pallene, e seus filhos Rhea, Dione, Io, Tarvos, Janus e Belinda. A velha senhora era uma pintora que não pintava nada. Vinha de uma família de artistas e, quando jovem, fazia dupla e cantorias com a irmã Europa. Conseqüentemente, Miranda era tia de Carme e tia-avó de Mimas. A casa onde Miranda morava com seus gatos era terrivelmente assombrada, e foi à procura de algo simples que Mimas revirou o segredo que mudaria a vida de todos os moradores da rua rubra.Revirando a terra para descobrir o mistério das luzes de néon dos telhados, ela encontrou uma argila, cujo composto dava o lume nas telhas. E, ao lado um deserto de silício, areia cinza em abundância, que era usada nas construções de casas e também na fabricação de memórias artificiais.Mimas caminhou pela sala da tia avó Miranda. Todos os moradores da rua rubra estavam presentes. Passou as mãos sobre as paredes, suavemente, sorriu e disse: “Descobri o motivo das aparições fantasmagóricas que habitam a rua rubra”. Inicialmente, ninguém quis acreditar, mas ela provou que a areia, o silício tinha um grande poder de armazenamento, assim como a memória de um computador. Sendo as paredes de todas as casas revestidas ou rebocadas com este material, havia um passado gravado em todas as salas, quartos e cozinhas. Não se tratava de fantasmas e sim de energia, imagens e ruídos. Os espectros que Miranda e todos os moradores viam e ouviam, eram apenas reflexos de combinações guardadas na memória das paredes e mal interpretadas pela mente humana.
Fim
Silício – elemento não metálico muito abundante na crosta terrestre. Usado na fabricação de ligas.
Silicaluminoso – composto de silício e alume.
Peixe Corcoroca - Haemulon Album
Corpo alongado, moderadamente alto e um pouco achatado. Coloração cinza-bronzeada clara uniforme em todo o corpo. Medem normalmente de 15 a 20 cm de comprimento, podendo chegar a 50 cm e pesar mais de 1 Kg.

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