A simples invisibilidade é algo que ainda surpreende aos olhos dos desatentos. E por esse motivo, Desencarnação ficou escondida, oculta até os dias de hoje. A cidade não pertence ao Brasil e nem ao Paraguai, fica numa estreita franja de terra cercada de montanhas, a oeste da Bolívia. Para se chegar em Desencarnação só existem dois caminhos: o céu e também uma estrada-de-ferro dada como desaparecida no início do século XX. E, para se fugir, ainda tem uma terceira e burlesca opção, a morte.
Tristeza tecia um retrospecto da própria existência, dos dias moucos que teve como uma fêmea da espécie humana. Seu corpo belo foi construído quando jovem, contrariando o senso comum - invadiu os domínios da perfeição por ter nascido um homem, tangível, embora igualmente impreciso, um comum postulado da civilização.A tarde tinha espasmos de cores e sons ante os sentidos daquela mulher, andarilha, que caminhava solitariamente pela estrada Transchaco. Era abril, as nuvens dormiam cedo, deixando o céu amarelo-sépia para marrecos, patos e estrelas. Tristeza tinha os pés descalços. Levava uma sacola de lona com objetos pessoais e pragmas de sua vida até então. Colhia araticuns, cajus do campo e araçás, alimentos que seu instinto primordial indicava.
A noite chegou num piscar de olhos, iluminando a velha estação de trem desaparecida no século XX. Sua mente manteve o mito para impor ordem à realidade, pois ficara tomada de paixão pelo mistério e o enigma que a levava até a cidade de Desencarnação. Tristeza dormiu por dias e noites sobre o banco de madeira da estação iluminada. Ao despertar, deparou-se com alguns homens indígenas e cachorros que também esperavam aquele trem. Caminhou lentamente até o banheiro da estação e, ante ao espelho, emoções fugidias vieram à tona. O medo desencadeado lhe trouxe um alerta para sobreviver e ao voltar para a plataforma da estação, Tristeza era um homem novamente, com havia nascido há 50 anos. Por detrás dos olhos tristes e profundos carregava o conhecimento de ter vivido e sobrevivido sobre a crosta deste mundo, onde modelos matemáticos codificam as nossas observações. Estava pronto para embarcar.
Minimal, um apito e uma luz surgiram como um encanto pelos trilhos enferrujados - era quase manhã. Uma chuva mansa lavou a paisagem que corria pela janela. Havia somente cinco vagões, quase todos tomados por indígenas e seus cachorros.
Américo deixara Tristeza com suas tralhas e sua alma numa cova surda além daquela estação e trilhos. Uma vastidão de pensamentos lhe tomou de assalto. A evolução dos sentidos trouxe à tona partículas de lembranças de quando ainda era um contumaz pensador, que bradava em becos e vendia a alma por gramas de veneno e pão.
Agora, o tempo havia parado dentro daqueles vagões que seguiam rumo a Desencarnação. Todos os passageiros dormiam pesadamente, exceto os cachorros e Américo, que mantinha os sentidos fundidos e abalados. Os ruídos e outros barulhos se tornaram nítidos, tinham cores e até gosto. A chuva havia ficado para trás e a paisagem mudava rapidamente pela janela. Um céu cinzento cobria rochas de halita, que refletiam um mar plúmbeo e sem vida. Américo sentia o gosto do sal que entrava com o vento. Caminhava e fumava pelos corredores, às vezes mudando de vagão.
Novos dias e noites surgiam como fotogramas pelas janelas do trem. Américo esquadrilhava o céu, pasmado, pois nada o intrigava tanto quanto o tempo e o espaço. Agora tinha os sentidos evoluídos, inclusive uma visão ampliada que lhe dava uma maior amplitude no horizonte de eventos.
Aqueles homens indígenas sorriam enquanto acariciavam seus cachorros, atentos aos movimentos, gestos e na fala eloquente do homem branco e cheio de sabedoria.
- Estar vivo significa viver no mundo que precede à própria chegada e que sobreviverá à partida – proferiu Américo, enquanto esticava as pernas sobre o banco da frente ao lado de um cachorro. Sentado ao seu lado estava um bugre muito velho, que fumava cigarro de palha e dizia se chamar Coração Selvagem, nome que ele mesmo escolhera a 95 anos passados.
- Para onde segue este trem? – perguntou Américo para o bugre. Todos ouviram, inclusive os cachorros que latiram em conjunto com as gargalhadas que todos que estavam ali deixaram escapar.
- Nós moramos numa reserva que fica a duas léguas de Encarnação. A cidade é depois do rio – respondeu Coração Selvagem, com a voz embargada.
Américo encolheu as pernas e se perdeu por entre os olhares enigmáticos daqueles homens e também dos animais. Soa um apito profundo para uma noite dupla, entremeada de vaga-lumes, corujas e curiangos, que precedem a chegada.
Américo caminha novamente pelos corredores. Agora tem noção da obscuridade de seu destino. Uma usual fome física atropela seus pensamentos. Os bugres abrem suas matulas e lhe oferecem a carne de aves coberta por farinha de mandioca. O cheiro do solene jantar envolveu todos os vagões, o deserto e suas criaturas noturnas.
E no primeiro amanhecer da noite dupla o trem chegou ao seu destino final. O céu estava muito negro, não havia nuvens e a constelação de Orion parecia flutuar no espaço diante de seus olhos, algo que se assemelhava a uma alucinação. Coração Selvagem ficou parado observando toda agonia daquele homem branco; os bugres e também os cachorros seguiram por uma trilha pelo interior de um mar de xerófilas.
- O que você pensa do espírito? – perguntou Coração Selvagem, enquanto andava em passos lentos em direção ao homem branco, ajudado pelo seu cachorro.
- Não penso nada, espírito não existe! – respondeu Américo, enquanto se ajeitava sobre uma pedra que dava visão para o rio.
- Pois para nós o espírito humano é somente uma transferência. É a nossa presença de pensamento em contato com o mundo e maneira de caminhar sobre ele, desfrutando o melhor, uma busca eterna por um conjunto de normas que funcione perpetuamente em equilíbrio, assim como dentro dessa castanha – explicou Coração Selvagem,exibindo uma semente de araticum.
- Entendo, onde está a cidade de Desencarnação?
- A cidade ficava logo ali, depois do rio, não existe mais. Você nunca voltará de trem, o mato tomou conta de todos os vagões e trilhos. Retorne pelos fios do telégrafo. Dizendo isso, Coração Selvagem levantou-se, olhou dentro dos olhos de Américo e desapareceu na noite junto com seu cachorro.
E no segundo amanhecer da noite dupla não havia constelação e nem estrelas. As nuvens estavam carregadas de energia e do outro lado do rio fogos-fátuos escapavam de gretas de um lençol de coisas mortas. Américo adormeceu por exaustão física naquele chão duro e salgado.
Tristeza tinha gosto de sal e formigas na boca ao acordar sobre um velho banco de uma estação de trem abandonada. Havia dormido muito e a garoa fazia uma sinfonia com os ruídos de seu sonho longo. Sentia fome e olhava a estrada Transchaco, seu caminho, cujo céu estava cheio de paisagens: nuvens, mar, deserto e miragens.
fim





















