terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Caminho para Desencarnação - conto


A simples invisibilidade é algo que ainda surpreende aos olhos dos desatentos. E por esse motivo, Desencarnação ficou escondida, oculta até os dias de hoje. A cidade não pertence ao Brasil e nem ao Paraguai, fica numa estreita franja de terra cercada de montanhas, a oeste da Bolívia. Para se chegar em Desencarnação só existem dois caminhos: o céu e também uma estrada-de-ferro dada como desaparecida no início do século XX. E, para se fugir, ainda tem uma terceira e burlesca opção, a morte.
Tristeza tecia um retrospecto da própria existência, dos dias moucos que teve como uma fêmea da espécie humana. Seu corpo belo foi construído quando jovem, contrariando o senso comum - invadiu os domínios da perfeição por ter nascido um homem, tangível, embora igualmente impreciso, um comum postulado da civilização.
A tarde tinha espasmos de cores e sons ante os sentidos daquela mulher, andarilha, que caminhava solitariamente pela estrada Transchaco. Era abril, as nuvens dormiam cedo, deixando o céu amarelo-sépia para marrecos, patos e estrelas. Tristeza tinha os pés descalços. Levava uma sacola de lona com objetos pessoais e pragmas de sua vida até então. Colhia araticuns, cajus do campo e araçás, alimentos que seu instinto primordial indicava.
A noite chegou num piscar de olhos, iluminando a velha estação de trem desaparecida no século XX. Sua mente manteve o mito para impor ordem à realidade, pois ficara tomada de paixão pelo mistério e o enigma que a levava até a cidade de Desencarnação. Tristeza dormiu por dias e noites sobre o banco de madeira da estação iluminada. Ao despertar, deparou-se com alguns homens indígenas e cachorros que também esperavam aquele trem. Caminhou lentamente até o banheiro da estação e, ante ao espelho, emoções fugidias vieram à tona. O medo desencadeado lhe trouxe um alerta para sobreviver e ao voltar para a plataforma da estação, Tristeza era um homem novamente, com havia nascido há 50 anos. Por detrás dos olhos tristes e profundos carregava o conhecimento de ter vivido e sobrevivido sobre a crosta deste mundo, onde modelos matemáticos codificam as nossas observações. Estava pronto para embarcar.
Minimal, um apito e uma luz surgiram como um encanto pelos trilhos enferrujados - era quase manhã. Uma chuva mansa lavou a paisagem que corria pela janela. Havia somente cinco vagões, quase todos tomados por indígenas e seus cachorros.
Américo deixara Tristeza com suas tralhas e sua alma numa cova surda além daquela estação e trilhos. Uma vastidão de pensamentos lhe tomou de assalto. A evolução dos sentidos trouxe à tona partículas de lembranças de quando ainda era um contumaz pensador, que bradava em becos e vendia a alma por gramas de veneno e pão.
Agora, o tempo havia parado dentro daqueles vagões que seguiam rumo a Desencarnação. Todos os passageiros dormiam pesadamente, exceto os cachorros e Américo, que mantinha os sentidos fundidos e abalados. Os ruídos e outros barulhos se tornaram nítidos, tinham cores e até gosto. A chuva havia ficado para trás e a paisagem mudava rapidamente pela janela. Um céu cinzento cobria rochas de halita, que refletiam um mar plúmbeo e sem vida. Américo sentia o gosto do sal que entrava com o vento. Caminhava e fumava pelos corredores, às vezes mudando de vagão.
Novos dias e noites surgiam como fotogramas pelas janelas do trem. Américo esquadrilhava o céu, pasmado, pois nada o intrigava tanto quanto o tempo e o espaço. Agora tinha os sentidos evoluídos, inclusive uma visão ampliada que lhe dava uma maior amplitude no horizonte de eventos.
Aqueles homens indígenas sorriam enquanto acariciavam seus cachorros, atentos aos movimentos, gestos e na fala eloquente do homem branco e cheio de sabedoria.
- Estar vivo significa viver no mundo que precede à própria chegada e que sobreviverá à partida – proferiu Américo, enquanto esticava as pernas sobre o banco da frente ao lado de um cachorro. Sentado ao seu lado estava um bugre muito velho, que fumava cigarro de palha e dizia se chamar Coração Selvagem, nome que ele mesmo escolhera a 95 anos passados.
- Para onde segue este trem? – perguntou Américo para o bugre. Todos ouviram, inclusive os cachorros que latiram em conjunto com as gargalhadas que todos que estavam ali deixaram escapar.
- Nós moramos numa reserva que fica a duas léguas de Encarnação. A cidade é depois do rio – respondeu Coração Selvagem, com a voz embargada.
Américo encolheu as pernas e se perdeu por entre os olhares enigmáticos daqueles homens e também dos animais. Soa um apito profundo para uma noite dupla, entremeada de vaga-lumes, corujas e curiangos, que precedem a chegada.
Américo caminha novamente pelos corredores. Agora tem noção da obscuridade de seu destino. Uma usual fome física atropela seus pensamentos. Os bugres abrem suas matulas e lhe oferecem a carne de aves coberta por farinha de mandioca. O cheiro do solene jantar envolveu todos os vagões, o deserto e suas criaturas noturnas.
E no primeiro amanhecer da noite dupla o trem chegou ao seu destino final. O céu estava muito negro, não havia nuvens e a constelação de Orion parecia flutuar no espaço diante de seus olhos, algo que se assemelhava a uma alucinação. Coração Selvagem ficou parado observando toda agonia daquele homem branco; os bugres e também os cachorros seguiram por uma trilha pelo interior de um mar de xerófilas.
- O que você pensa do espírito? – perguntou Coração Selvagem, enquanto andava em passos lentos em direção ao homem branco, ajudado pelo seu cachorro.

- Não penso nada, espírito não existe! – respondeu Américo, enquanto se ajeitava sobre uma pedra que dava visão para o rio.
- Pois para nós o espírito humano é somente uma transferência. É a nossa presença de pensamento em contato com o mundo e maneira de caminhar sobre ele, desfrutando o melhor, uma busca eterna por um conjunto de normas que funcione perpetuamente em equilíbrio, assim como dentro dessa castanha – explicou Coração Selvagem,exibindo uma semente de araticum.
- Entendo, onde está a cidade de Desencarnação?

- A cidade ficava logo ali, depois do rio, não existe mais. Você nunca voltará de trem, o mato tomou conta de todos os vagões e trilhos. Retorne pelos fios do telégrafo. Dizendo isso, Coração Selvagem levantou-se, olhou dentro dos olhos de Américo e desapareceu na noite junto com seu cachorro.
E no segundo amanhecer da noite dupla não havia constelação e nem estrelas. As nuvens estavam carregadas de energia e do outro lado do rio fogos-fátuos escapavam de gretas de um lençol de coisas mortas. Américo adormeceu por exaustão física naquele chão duro e salgado.
Tristeza tinha gosto de sal e formigas na boca ao acordar sobre um velho banco de uma estação de trem abandonada. Havia dormido muito e a garoa fazia uma sinfonia com os ruídos de seu sonho longo. Sentia fome e olhava a estrada Transchaco, seu caminho, cujo céu estava cheio de paisagens: nuvens, mar, deserto e miragens.

fim

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Azul disfórico - conto




  Chegou de algum lugar, mas esqueceu de onde. Os olhos eram subterfúgios do verbo que usava para sobreviver. E como um profeta, gritava oportunos discursos que foram escritos por um filósofo de dois mil anos atrás. Tinha 24 anos e já chegara ao limite do seu conhecimento sobre o mundo e seu habitual avezar. Pastor Anderçon Creise carregava o peso da extrema insensatez da idade. Pregava pelos corredores e escadarias do parque Dom Pedro e, de domingo em domingo, foi arrebanhando seguidores, até conseguir reuni-los num pequeno salão, no bairro do Brás, em São Paulo. Nas noites de quinta-feira tinha cerimônia de culto, era quando pastor Creise distribuía alguns cigarros feitos com erva-doce para os seguidores mais fiéis. Ao fim, violava e aviltava sua própria doutrina num discurso em tom amargo, no qual, por repetidas noites, apregoava seu amor hetero-homossexual por tudo que se movia no mundo.No auge de seu arrazoado orar foi que um fortuito episódio lhe revogou a palavra e o pensar. Contaminado pelo amor, sofria uma síndrome de Deus.
 E no dia de Natal, São Paulo amanheceu em trovoadas, águas e nuvens pesadas fitavam para um pequeno quarto no Brás, onde por de trás da janela antiga um leito recebia o peso do pastor Anderçon Creise, que respirava pela última vez. Situação de exaustão físico-psíquica, fragmentos de instantes vividos vêm ao lume. O coração parou... O homem está morrendo.

A luz deixara de entrar em alguns dos cem cômodos, as paredes adquiriram um tom cinzento esverdeado de pequeninas plantas em musgo, o chão era frio, úmido e pelos cantos lacrimejavam águas armazenadas nos tijolos. Também não tinha janelas, apenas alguns buracos fechados com ferro em cruz, perto do telhado de cinco metros de altura. O lugar era endoidecedor, lúgubre o lar para mais de trezentos internos, loucos, dementes e alienados – uma pintura de Goya. Ele nascera naquele manicômio e passara quase 24 anos  sem roupas. A parte primitiva do cérebro tomou o controle e seus dentes cresceram, os pelos grossos tomaram conta do corpo e com freqüência tinha alucinações visuais e auditivas, herança dos pais que viveram por mais de cinqüenta anos no manicômio, como internos. Emoções turvas abriram outras portas na mente e como uma cascavel enxergava também no escuro em infravermelho.
Na esquina de um Natal sombrio, nuvens estranhas criaram ilhas de algodões que choveram um oceano por três dias. As portas do velho Manicômio foram abaixo e seus moradores desapareceram tentando atravessar um rio de lama cujas correntes, invisíveis, eram ondas de rádio. Ele sobreviveu, sua cor de morto lhe dava um elevado nível de filosofia ante à morte. Tinha memória de um mundo selvagem do qual nada era pior que assistir loucos morrendo afogados em ondas de rádio sobre um deserto de lama e sal. Depois do temporal o céu voltou para sua rotineira vida. Sozinho, novamente, ele se põe na estrada rústica que levava para Nova Cafarnaum, lugar que conhecia apenas em sonhos. Caminhou por cinco dias e noites, assistia imagens espetaculares sobre sua cabeça, comia paradoxos e greenberrys que colhia pelas margens ásperas daquela via. E no final do quinto dia ele acordou do transe numa vereda onde luzes se cruzavam em velocidades altíssimas rumo ao espaço aberto. Ele sentia o efeito de alguém caindo num buraco sem fundo. Alienado às relatividades temporais do mundo, se viu perdido ante um oceano de fluído escuro e extraordinariamente desabitado de almas como ele conhecia. Sem erudição científica, sem corpo físico, apenas aquela centelha de energia não tinha onde se apagar ou agarrar e, assim, como toda criatura ignorante, se perdeu no vazio absoluto.

Por trás da janela de vidro no bairro do Brás, pastor Creise é velado por nuvens grávidas que choramingam as últimas gotas da chuva e alguns poucos fiéis, que cultuam o simples processo neurobiológico como uma experiência mística. Suas vozes oram em coro para um céu absolutamente vazio.
fim

domingo, 6 de dezembro de 2009

Polux & Castor - conto


Sentado no alto do edifício da Galeria São José, Polux tentava entender a visão que tinha sobre os horizontes em constante sépia avermelhado. Era uma librina de grãos de terra suspensos, formando uma grande redoma de poeira, uma paisagem que ecoava tempos primitivos da Terra e, logo abaixo, a cidade cindida entre córregos, cerrados e um agosto que terminava no finalzinho de outubro. Às vezes, Campo Grande parecia um barco à vela assustado e naufragando sob estrelas gargalhantes do hemisfério sul.

Pensava Polux: o tempo é irreparável, nasci na extremidade errada dele e tenho que viver detrás pra diante...
Os gêmeos nasceram num outono de ventania, sob um céu absurdo e na parte nodosa do dia. A mãe vivia sozinha sobre a margem terrosa e áspera do rio Inhanduí-Guaçu. Maria era uma mulher singular, de muitos amores e pouca idade. Casou-se com dezoito anos e logo ficou grávida. Numa manhã de nuvens baixas, Maria lavava roupa à margem esquerda do rio, cantava com águas bebendo da vida lentamente quando chegou para degustação um homem purificado de natureza bravia e que dizia palavras com amplos sentidos. Era um ser metafórico, que pescava naquele rio e seduziu a moça com precisão e paixão. Irrompendo com a ordem natural dos acontecimentos Maria teve dois filhos, cada um de um pai e ao mesmo tempo. Múcio, seu marido, pai de Castor e progenitor de Polux, fazia um trio musical com paraguaios - tocava harpa na churrascaria “Lá carreta”- ficou profundamente abalado com a situação, triste e foi embora para o Paraguai.
E nas sendas do cerrado, onde mangueiras espionam sobre muros, os meninos cresceram juntos. Se amavam como irmãos e conheciam igualmente as razões inconsoláveis de todos os prantos. Artistas de corpo e alma, de mambembes espetáculos pelas calçadas e praças da cidade, os gêmeos sobreviviam desta arte. Polux morava no Grande Hotel Gaspar, tinha gosto por vinhos e charretes – vagava pela cidade de sul a leste.
Na diurna exultação, o quarto de luz amputada pela cortina; no segundo andar do hotel, um bem-te-vi bate o bico contra a vidraça, xícara e restos de alimento sobre a mesa, onde sombras distorcidas de formigas rondam em procissão. Sonolento, Polux se levanta e sua rotina, antes do irmão chegar, era contemplar pela janela do quarto a estação ferroviária, chegadas, partidas e algo miraculoso nas manhãs alaranjadas, onde pássaros explodiam em sons pela esplanada.
Castor morava distante do centro da cidade e no meio de um guaviral; tinha oito filhos com a mesma mulher, que se chamava Maria como sua mãe. A família tirava mel das flores de mirtáceas através das abelhas que cultivavam. Qualquer grande esperança é grande engano - pensava Castor - somos peregrinos de uma existência absurda de agonia e lágrimas sem sentido ou glória!
À noite, velas soltam lágrimas aprisionando mariposas no escuro crespusculado dos grilos e, na alvorada do dia, nuvens calmas e aves se reúnem sobre aquele nicho de homens, formigas, bocaiúvas, araticuns e um fogão de lenha recém-aceso. Era quando Castor tinha surto de imaginação ante ao bule de café. Assistia uma gota de orvalho se equilibrando na haste da bananeira, o gato afiando as garras, os filhos dormindo e o mundo girando. Indignação extinta, ressaca vaga, vinho, remorso e um desejo exaltado de pensar forte e de nunca morrer. Castor era ave noturna, abria as auroras e fechava as escuridões, sabia que sua herança era canga pesada, criar os filhos e viver como um mortal. Costumeiramente, encilhava o cavalo para a charrete e seguia em troteada para o centro da cidade onde encontrava com o irmão Polux em frente da Estação Ferroviária. Semeadores enlevados de harmonia, além das paixões terrenais, tinham encanto de deuses gregos que ficou gravado num fotograma no céu noturno de gêmeos.

Polux balançava as pernas sobre os dez andares do edifício da galeria São José, tinha presságios enquanto assistia nuvens lutulentas que pairavam sobre a profusão de pessoas que se aglomeravam ao longo da Rua 14 de julho até o relógio central. Castor organizava o povo que olhava o relógio e cobrava em coro a decisão de Polux saltar. – Salta! Salta! Salta!
Saltou sem se benzer, por entre aplausos e emoções... Desceu os dez andares num silêncio de quem já morreu. Bateu na calçada e, por alguns segundos, ficou inerte, parecia que a vida tinha se apagado mas, de repente, ele se mexeu, sorriu, levantou, sacudiu a poeira e o aplauso em volta muito mais cresceu. Polux e Castor passaram o chapéu recolhendo o dinheiro que a platéia deu. Depois, seguiram abraçados, como sempre, rumo à Praça Ary Coelho, onde a charrete ficava estacionada.

fim

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

As noites de Maria Calíope - conto



Aquele chão vermelho e o céu sépia, durante os dias, se entrelaçavam entre as noites desconcertantes com estrelas e luzes distantes. Todos os dias de sua vida ela cruzou a fronteira do Brasil com o Paraguai onde lecionava português e música para jovens de uma reserva indígena. E todas estas noites de sua vida foram iluminadas por uma harmonia profunda e criaturas desconhecidas, talvez somente imaginadas por ela durante todos os anos que viveu. Sua natureza abstrata e lógica dava-lhe o prazer de desvendar e interagir com o universo físico, assim como ela mesma. Também acreditava que a matemática era o pilar que dava sustentação para compreender e entender o mundo.
Todas as manhãs o sol despejava pacotes de luz sobre os pobres telhados de barro, muros corrompidos e vegetações secas, criando sombras soberanas pelo chão duro e empoeirado. Maria contava as nuvens ralas enquanto caminhava por aquela estrada sem brandura, que levava à escola rural. Ela ensinava quase tudo para aqueles jovens - além de música e de português, falava de filosofia e ciências. No fim do dia voltava só novamente e seus passos exatos eram seguidos pelos corpúsculos da tarde até a linha da fronteira, onde, misteriosamente, paravam alguns segundos, como uma ataxia do tempo, deixando Maria anoitecer do outro lado, dentro de casa.
Guardadora de estrelas e com um sorriso de melopéia, Maria Calíope iluminava de sons e luzes toda a rua, moldando as noites de eventos atemporais e mimos em forma de iguarias como sonhos, rabanadas, esquecidos, nuvens e pudins cujas receitas foram trazidas pela avó da terra natal. Os visitantes chegavam com a noite e saíam ao amanhecer. Traziam notícias de acontecimentos notáveis e relatavam suas imprecisas vidas ao redor deste mundo singular. Dissolviam-se as madrugadas em palavras, ruídos, chás e doces. Os poucos moradores e vizinhos que viviam próximos àquela pequena casa de madeira avarandada nunca viram nada anômalo, exceto luzes de cores variadas e sentiam o cheiro dos doces portugueses.
A cozinha era o maior cômodo da casa: fogão de lenha e forno, latas cobertas com picumãs, onde guardava os cereais e biscoitos. Quatro cadeiras e mesa de madeira sempre coberta por singelas decorações de flores secas com fuligem e toalha xadrez. Por alguns anos, tempo da adversidade e mocidade, ela compensava a falta de afeto com delírios e doces, junto daqueles que chegavam com a noite.
Em dezembro de 1989, quando completou quarenta anos, nesta mesma noite recebeu uma visita fora do padrão, um espectro de aparência vã. Pasmada entre o medo e o desejo, se perdeu em fluídos e logo deixou o medo por uma paixão atemporal. . Ela o chamou de “Sem Forma” e o via através do espelho, que ficava ao lado da mesa na cozinha. Mulher madura e versada, amava com intensidade e havia resolvido problemas de solidão e conflitos. Instinto atávico de mãe, trouxe-lhe um filho que adotou na reserva indígena onde dava aulas. Sob os seus domínios de perfeição, o ardor dos sentimentos pelo menino e também pelo amante era de tal intensidade que lhe consentia extravagâncias utópicas. Suppé tinha aspecto exterior indígena, cabelos longos e inteligência musical simétrica, que lhe evocavam aspectos de felicidade, um legado de Maria Calíope ou da singularidade da sua mente.
Sombras de nuvens correm pelo chão formando algodões sépia sobre a fronteira. Flores brancas de mirtáceas rudemente pintadas com poeira montam sua guarda pelo caminho onde nada passa, a não ser cascavéis e, ocasionalmente, mensagens zumbindo pelos fios telegráficos. Suppé, em passos lorpa, segue rumo ao Paraguai é a primeira vez que ele arreda os pés do território de sua mãe. Então, aquela tarde – como um bicho - começou a ter pensamentos incessantes e, por mais de vinte minutos, sinapses elétricas salpicaram a paisagem que, castigada pelas descargas, incendiava os coqueiros torrando os ninhos de papagaios. O garoto não entendia nada sobre tempestades, sobretudo  elétricas, e continuou sua rota rumo ao Paraguai. E logo foi atingido por um daqueles estalos secos, que o jogou fora da estrada. Respiração arquejante, Suppé abre os olhos, vê nuvens negras que se movem, o fogo e os fios do telégrafo num céu surdo. Insiste em movimentar o corpo, perdera os movimentos, mas ainda ouve o coração batendo apressado dentro da cabeça que dói, latejante.
Maria Calíope, atônita, observa a tempestade de raios pela janela da casa. Sua mente excitada procura uma solução e lembra que possuía predisposição genética que contrariava a razão e as experiências vividas quando tinha três anos de idade e foi atingida por uma descarga elétrica de alta voltagem. Instantaneamente, ela precisava fazer uma viagem empírica pelo fio do telégrafo, achar Suppé e trazê-lo em segurança para casa.
 A mulher era uma criatura humana e estava condicionada a pensar no tempo como um rio que flui, segue sua rota e não volta. Agora, ela em desespero corria pela casa e pedia uma solução ao céu. E veio pela antena parabólica, que ficava sobre o telhado. Uma cabal corrente elétrica, como um projétil, incorporou seu corpo embrenhando-se pela tomada e fios da casa. Ponderada e analítica, sua mente precisa percorreu, em milésimos de segundo, toda aquela fronteira oolítica que queimava ao vento seco. A matemática mais uma vez foi a salvação, através da música de timbre cristalino que ela tocava pelos fios dos telégrafos. Suppé ouviu seu chamado, sua canção, como um ninar cujas notas eram tiradas dos fios acima do seu corpo, que respirava poeira e continuava inerte no solo.
Apesar da severa desordem dos músculos e de seu raciocínio, a música modulada foi decodificando em sua mente confusa o que havia ocorrido. Passos incertos, corpo magoado e com uma terrível dor de cabeça ele retorna para casa. A noite chegou e com ela também veio a ordem na fábula que lhes pertencia e assim, demasiados, os três viveram mais de mil noites extraordinárias, que contagiavam a paisagem revestindo-a de mistérios e dias ensolarados, onde as horas batiam lentamente no limiar da escuridão.

Epílogo

Maria Calíope foi professora por toda sua vida, que durou pouco. Acreditava que o alicerce do pensamento tinha início como o Big-Bang. Impelida à solidão, desenvolveu obesidade e diabete, que a levaram à morte. Na cozinha não havia espelho e sim fogão de lenha e forno, latas cobertas com picumãs onde guardava os cereais e biscoitos. Quatro cadeiras e mesa de madeira e um velho aparelho de televisão. Ali a mulher passava as noites comendo doces portugueses, assistindo a filmes antigos. Sozinha. Partiu para encontrar sua última ilusão no dia do seu aniversário de quarenta anos. Os olhos abertos e cravados no aparelho de televisão que, ligado, captava ecos do Big-Bang. Seu filho Suppé, que não era um índio, desapareceu um dia antes na fronteira do Brasil com o Paraguai. De resto nada existiu.

fim

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Papoula solitária - conto


Era como um sonho, no qual eu voava ou caía no vazio do espaço. Sentia beliscões pelos braços e pernas quando passava dentro de nuvens escuras. Despertei estonteado, pasmado e com os olhos colados num teto repleto de teias de aranhas e picumãs. Ouvia vozes por detrás das paredes e não conseguia distingui-las. O quarto girava e o ventilador de teto estava parado. Permaneci deitado por alguns instantes, pensamento lento e corpo pesado – era como um sonho dentro de outro sonho -, pensava que poderia acordar a qualquer instante!
Pelo lado de fora, um alarido de sol e gente que circulava pelas estreitas ruelas com casinhas construídas com um tipo de tijolo artesanal – adobe -, pintadas de branco. Saí daquele quarto desconhecido pela janela enorme que dava para a rua. Pessoas pararam em minha volta e eu não entendia nada - falavam espanhol com diferente pronúncia. Da casa onde acordei saiu uma mulher que se dirigiu a todos que se aglomeravam.”El hombre cayó desde el cielo!” – disse ela sorrindo. Tinha um rosto redondo, cabelos lisos brancos e pouco mais de 50 anos.
“Tengo que regresar a sus alas. Buenos días a todos” – segurou na minha mão e puxou para dentro da casa novamente.Era uma espécie de pousada rústica com alguns quartos e pouco hóspede. A mulher, a senhora com sorriso largo, devia ser a proprietária. Eu ainda não sabia qual lugar era aquele e nem porque estava ali. Confuso e intrigado, comi tudo o que estava sobre a mesa. Algumas crianças com aparência indígena olhavam curiosas pela janela. Mais uma vez a mulher se aproxima e pergunta alguma coisa: “ Hombre del cielo, como la comida?” – parou em minha frente, continuou sorrindo e novamente perguntou outra coisa, fazendo gesto de cigarro até a boca: “El hombre quiere a la marihuana? Sem respostas de minha parte, a mulher se retira cantarolando. Abre uma janela e fala gritando com alguém, ”niño, llevar las alas del hombre!”. Momentos depois entra um garoto carregando um paraquedas todo enrolado e sujo. E tudo virou um enigma novamente. O apetrecho não era meu, apenas havia sonhado que voava por entre nuvens e acordei em um pequeno quarto no fim do mundo. Voltei a dormir com a esperança de acordar daquele velado devaneio.
Dois dias de sono pesado, sem sonhar e como um morto passei. No final do segundo dia acordo disposto e com muita larica. Procuro pela mulher de sorriso largo, que já me esperava com uma refeição sobre a mesa da sala. Sempre cheia de cordialidade, ela faz gestos com as mãos, olha para a mesa e diz algo: “Compuesta de Quínoa, arroz, camote, carne de pollo y carne de llama. Auquénido andino.” Depois se retira, sorrindo.
A noite caiu como uma lavoura de papoulas sobre aquele lugar árido, cujo ar salgado era difícil de respirar. Saí rumo a um deserto que iniciava no final da rua. A paisagem primitiva era estranha aos meus olhos, havia centena de animais desconhecidos pastando e as primeiras estrelas no horizonte. Carregava o paraquedas que não era meu, alguns cigarros de maconha e pensamentos obscuros. Caminhei fumoso noite adentro e, ao fim, estava exausto no meio de um deserto avermelhado. Havia uma mão gigante esculpida em sal e areia e foi neste lugar que escrevi meu nome, história e deitei-me à sombra daquela palma.
O dia chegou novamente, minha percepção estava alterada e o sol parecia o rosto risonho e escaldante daquela mulher... Mi nombre es Ramona. Mi casa está en la ciudad fantasma. Deserto de Atacama, San Pedro. Me encontré con el hombre que cayó del cielo. Era un buen hombre. Pero era demasiado loco. Fumaba 2 libras de marihuana. La marihuana ha hecho bien en su carne. Se lo comió asado con hierbas. Sabroso!
fim

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Amanhecer - Papel de parede


terça-feira, 3 de novembro de 2009

NovembrO - Papel de parede


sábado, 31 de outubro de 2009

Céu líquido - conto


A oeste de Mato Grosso do Sul os morros elevam escarpados e há vales com matas cerradas nas quais nunca um ser humano esteve. Existe uma vegetação atípica, que margeia a única estrada de areia onde árvores se inclinam fantasticamente e finos regatos escorrem do alto das pedras. Ao longo dessa estranha estrada de areias douradas há uma dezena de fazendas, com casinhas feitas de madeira, onde o mato de São Caetano percorre as cercas e paredes, dando a impressão de que estão todas abandonadas e que ainda guardam antigos segredos.
Os jovens moradores sempre vão embora. Os velhos continuam no lugar. Esta região não é boa para a imaginação e também não traz sonhos repousantes à noite. E, talvez por isso, este vale quase nunca é visitado por alguém. Outrora havia uma outra estrada, que vinha sobre as colinas e se encontrava com a estrada das areias de ouro. E, justamente neste encontro, formava um pequeno lago onde patos selvagens viviam.
 Hoje, é apenas um pavoroso pântano, repleto de jacarés, cobras, mosquitos e cercado por morros, onde o céu alcança em tom sépia, dando a impressão que ali estão enterrados segredos dos dias estranhos que se passaram. O silêncio era excessivo nas noites que começavam mais cedo e, às vezes, se ouviam uivos de lobos ao longe, ou melhor, ecos nas colinas.
1.900 e a guerra do Paraguai havia terminado. Quase todas as famílias que viviam ali foram embora e algumas outras chegaram. Ao lado direito do velho pântano arenoso tinha um enorme e retorcido carvalho seco, que balançava sinistramente ao vento. Segundo os moradores, aquele carvalho balançava mesmo sem vento algum. Atrás dele ficava a fazenda de Ramona, uma refugiada da guerra que ali se aportou. Ela nunca pensou em deixar aquele vale estranho. Aquele lugar sinistro combinava com a aparência de Ramona, sempre carrancuda - seus cabelos longos e brancos davam uma visão surrealista de sua figura atarracada mestiça com chiquitanos (índios bolivianos). Contudo, era uma espécie de matriarca da pequena comunidade.
Foi no quinto dia do mês de agosto que o horror eclodiu. A chuva despencou por toda tarde. No início da noite haviam ruídos estranhos e os cães latiram freneticamente. A madrugada foi invadida por um odor insólito. A chuva passou era 6 horas. Laguna, o ajudante contratado por Ramona para trabalhar na fazenda, voltou numa correria alucinada de sua jornada matinal à estrada de areia com as vacas. Ele estava quase convulsionando de pavor quando entrou, esbarrando em tudo que havia na cozinha, enquanto diante do fogão Ramona ficou a olhar sem palavras. Laguna tentou balbuciar sua história.
- Os anjos, os anjos, eles estão morrendo! Ramona não espera a narração, uma vez que o rapaz tem problemas na fala quando fica nervoso. Saiu em disparada, seguida por Laguna, e foram até a casa do velho Barbalho, um sujeito magro que criava porcos e tinha os dentes enormes de cor ocre. O velho Barbalho já passava dos 100 anos e vivia com sua mulher, uma negra fugitiva de um quilombo, conhecida por Abá. Eram os vizinhos mais próximos.
Os quatros saíram em direção à estrada de areia. Ninguém disse uma palavra - o céu estava escuro, corriam baixas nuvens apesar de ainda ser manhã. Dois quilômetros para a frente da fazenda de Ramona, onde passava a estrada velha, tinha um lugar que os antigos moradores denominavam “mesa dos anjos”, que para Ramona soava um tanto excêntrico e teatral - ela relutava contra as crendices daqueles vizinhos.
Mas, de certa forma, a “mesa dos anjos” guardava mistérios da terra primitiva. Não havia vegetação de espécie alguma numa extensão de cinco quilômetros; apenas cinzas ou uma poeira fina cinzenta que nenhum vento parecia soprar. As árvores próximas eram doentias, mirradas e havia muitos troncos pelo chão.
-Está lá - disse Laguna, apontando o dedo em direção à “mesa dos anjos”. O velho Barbalho arregalou os olhos, sempre amarelados, puxou a mulher pela mão e gritou.- Isso é coisa dos traficantes!
Todos olharam com espanto para seis corpos desossados e sem cabeça no centro da ravina seca. Tinham aparência humana, mas eram criaturas aladas. Os alucins, como ficaram conhecidos, viviam ali desde muito antes. Ramona e seus vizinhos preservavam o segredo de mantê-los afastados da civilização, uma vez que estavam em extinção. Estes seres tinham como uma evolução asas, que na fase adulta atingiam até 2 metros de envergadura. Eram dóceis e tinham os dois sexos numa só criatura. Sua procriação era evoluída e controlada, uma vez que os Alucins estavam fadados a um triste fim, levados pela ganância de alguns homens. A carne e as vísceras eram uma espécie de droga alucinógena, complexa e potente para seres humanos que pagavam altos valores por um pedacinho desses anjos...
- foram os traficantes sim. Agora estão extintos! – disse Ramona chorando.
O velho Barbalho, sua mulher e Laguna ficaram de joelhos em volta dos corpos desossados, sem cabeça e sem asas, numa prece em transe.

fim

domingo, 25 de outubro de 2009

Depois da chuva - wallpaper


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Uma história,quase,mágica - 2 - conto


Nasci para conquistar um mundo de coisa alguma, passei minha infância trocando de emprego e, antes de completar os 12, já era guardião de uma plantação de melancias. Dizia seu Trosso, o meu patrão, as melancias precisam ser vigiadas porque existem muitos chupins naquela roça ao lado. Vivendo e aprendendo. Nunca pensei que um chupim tivesse a capacidade técnica de furar a casca dura de uma melancia! Pois não tinha. Porém, os pássaros tinham o trabalho de avisar o verdadeiro ladrão de melancias.
Sentado, dias após dia debaixo de um jatobá, percebi que as formigas faziam procissão na beirada da tarde e que o verdadeiro ladrão era um tal de João Rola-flor. Um poeta e sábio, não sabia escrever nem o nome, mas tinha a habilidade de tecer barbante com orvalho – Rola-flor foi meu primeiro mestre.
Fiz sociedade com João Rola-flor e fomos rumo à fronteira do Paraguai. Na bagagem levei duas melancias e, meu sócio, uma sacola com dinheiro novinho – que ele mesmo havia feito na máquina de tirar cópias. Homem santo e de bom coração, comprou um chevrolete 51, caindo aos pedaços, somente pra ajudar a Igreja de Encarnacion. Depois, seguimos caminho para o Chaco, passamos por uma dezena de vilarejos, onde a indigência e os cachorros eram atrações principais.
João Rola-flor tinha planejado tudo em sua mente brilhante: usando o dinheiro novinho da sacola, poderíamos comprar cachorros e, assim, ajudar aquele povo sem versos. Pagávamos a mercadoria com uma nota de 50, novinha. Tinha troco de 20, porque o custo do cachorro era 30 - eu era o contador, mas não entendia porque comprar cachorros... Rola-flor dizia: somos anjos e ajudamos estas pobres criaturas. Cuide bem desses trocos!
Assim fomos até Fortín Florida, lotamos o velho chevrolete com cachorros magros, com fome e sede - foi uma época difícil em minha vida. O dinheiro novinho da sacola havia acabado, então restavam os trocos dos cachorros. Eu e João comíamos um pedaço de sopa paraguaia por dia. Os cachorros queriam comer e beber; o velho chevrolete tinha fome de óleo diesel e tinha também dois homens da polícia querendo prender meu sócio - tudo tinha, até dor de barriga por ter comido jatobá com água de chuva.
A justiça podia até ser inconexa e condenar um homem por ter feito seu próprio dinheiro, mas nunca mediria o grau de bondade anexado àquele coração. Fugimos de volta pra casa, era outono e o dinheiro que era o troco dos cachorros foi investido em comida para 48 cachorros.
Recordo-me, com ternura, do vilarejo onde abandonamos os cachorros e também o velho chevrolete. Talvez, muito talvez, aquele lugarejo ganhou o nome de “Jaguaron” devido a este episódio.
Voltei a vigiar a plantação de melancias tão pobre quanto antes, mas aprendi a ler pedras e quase tive um filho com aquele pé de jatobá. João Rola-flor virou um santo beberrão e vivia de benzimentos pra espinhela caída, dor de dente, enxaqueca de mulher e doenças da alma.

fim

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Uma história,quase,mágica - conto




Tarde de brasa em fogo, que queimava com cigarras ensandecidas. A noite era uma imensidão escura, salpicada pelas pálidas luzes que vinham das estrelas. Na madrugada, as teias de aranha viravam vidros nas pastagens urinadas pelo orvalho. E assim eram os dias daquele lugar. O mato tomava conta das casas e, na rua principal que findava na igreja, havia um beco que começou a mancar de uma perna. Foi justamente no dia em que Caranguejo chegou. Ele ganhou este apelido porque andava feito caranguejo quando perde uma perna. Era um sujeito que não tinha origem de nascimento, nem carteira, nem dente e tudo que o povo daquele lugar sabia sobre a pobre alma é que era bondoso e cheirava a flor de copo-de-leite – igual a morto. Ajudava no açougue, cortava lenha, levava recados e, às vezes, obrava no beco que mancava de uma perna.
O lugarejo incorporou o velho andarilho e, assim, foi por muitos anos. Caranguejo vivia nos fundos da carvoaria, lugar que sempre cuidou, onde escovava a boca e nunca trocou de roupas. Sempre a mesma calça, que ninguém descobriu ao certo que cor era.
Sabia-se que tinha mais de 80 anos e chegado ao norte da ignorância. Seu lugar preferido era o beco que mancava de uma perna, igual a ele. Criatura ordinária, carregava nos bolsos coisas sem utilidade - tampas de vidros, rolhas, papéis amassados e escritos, sem importância divina. Quando as sombras avançavam pela estrada, Caranguejo sentia êxtase de espantalho, corria pros roçados e cantava com voz de tenor.
Tudo era muito comum naquele lugar e as coisas só aconteciam nas noites de quinta-feira, inclusive o baile, para aquelas meninas anônimas que giravam pelo salão da igreja enquanto os mais velhos enfiavam pregos no escuro da noite. Dizem que serviam bolo de gengibre e suco de manga - eu nunca comi.
Um tempo depois veio viver no lugarejo um homem letrado de plantas, que fazia santidades com sementes. Leboulegard comprou uma propriedade desativada e construiu um grande viveiro de plantas exóticas. Ele era francês, tinha hábito de beber vinho tinto e comer coisas estranhas como lesmas, tripas e caracóis.
Logo passou a tarefa de separar semente para o Caranguejo. E, toda vez que uma manhã começava, lá descia homem rengo de uma perna rumo ao seu trabalho como separador de sementes.Com o olhar na fronteira do céu, que dava pra ver do seu quarto, ele fumava folha de bananeira enquanto enfiava coisinhas pelos bolsos da camisa antes de sair de casa. Na ocasião eu tinha 11 anos. Diversão pra um menino desta idade era fazer da palavra um brinquedo,pois isso facilitava meu trabalho, que era de mentir e inventar. Então, passei a cangar as tardinhas espionando o velho enquanto chupava manga e manuseava o pinto. Eu ficava sentado em cima daquele muro cariado por horas a fio. Lá eu anotava tudo.
Numa tarde, Caranguejo atravessou a rua principal e foi direto para o beco. Com a exuberância de quem sabia morrer, fechou a boca pras palavras e os olhos para o eterno. Seu último pedido era que fosse enterrado no fundo da carvoaria, lugar onde viveu por algum tempo. E assim foi. Lembro me que foi um dia muito importante da minha vida e do morto também.Todos os moradores estavam no velório. Leboulegard, que era seu patrão, disse que seria melhor banhar o defunto e tirar aquelas roupas que já tinham atingido grau de cera. Ninguém quis fazer tal coisa. Entre a excentricidade e o misticismo o velho andarilho viveu e morreu.
Numa das visitas que fiz ao túmulo de Caranguejo encontrei plantas, inúmeras plantas com pêlos nas folhas. Será que o velho virou planta, ou apenas um milagre normal? – poderia ser um esforço de poeta, ter virado planta!
A cidade inteira, um tanto erudita, preferiu um milagre. Eu, que amo as coisas sem prestígios, preferi sonhar que o homem virou planta. Leboulegard, que tinha os conhecimentos em desageros, afirmou que suas sementes de morangos tinham sumido e que o velho andarilho esqueceu-as nos bolsos da camisa.
fim

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

The lake of wine - papel de parede


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O homem da lua - conto



Depois de ter me incorporado como um elétron da tridimensionalidade, passei a perpetuar as tardinhas que desmanchavam cores quentes no horizonte. Sentado ali, na beira daquele lago, fazendo desenhos na água, eu compreendia tudo. As nuances que derretiam no espaço eram asas de borboletas que recortavam o ar. Eu envelhecia feito erva cidreira e as tardes eram o prólogo do que viria.
Então, coloquei meu traje azul de mangas leves, porque o que chegou foi a noite e, com ela, não vieram só estrelas e grilos, mas um um vento frio que acumulou folhas na varanda de minha casa; veio, enfim, uma absoluta certeza de que não haverá mais invernos, nem as andorinhas e o cheiro dos tomilhos na beira do lago. A canção no juke-box nunca mais será ouvida, as imagens desaparecerão, então, esquecerei o gosto da comida e os vermes vão beber cabernet sauvignon em minha boca.
Logo depois veio a aurora, rompendo melancolicamente a manhã - eu ainda estava acordado. Caminho em volta de minha casa, há nuvens calmas no céu, ouço o palavreado das andorinhas e vejo a tristeza das árvores de tangerina diante do dia que irá morrer comigo.
Maria chegou a cavalo e fez fogo cedo. Havia café e bolo de fubá sobre a mesa da cozinha e, na parede, um relógio cujos ponteiros haviam enferrujado dentro dele; bebi meu último café. O dia abriu em mim. As emoções descritas não foram sentidas naturalmente, usei meios artificiais para senti-las. Eu nunca senti tais emoções, verdadeiramente, como humano.
O mistério da vida me causa a mais forte emoção. Tenho grande amor pela minha espécie, mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não sinto falta deles porque sou profundamente solitário. Deixo este tipo de prazer aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo. Hoje, vivo sozinho na Lua - talvez eu seja o resquício de uma fera tentando entender sonhos de deuses.
Nasci em 2.048, no “Mar da Tranqüilidade” – onde o homem pisou pela primeira vez. Um pouco antes, as agências espaciais Nasa, Esa e China resolveram construir um grande laboratório fora da Terra. A Lua foi escolhida e meu pai, um jovem cientista, foi um dos pioneiros. Na mesma turma havia uma bela exobiologista, que era minha mãe e, juntos com mais 55 pessoas, formaram um grupo de cientistas fora do planeta Terra.
Meus pais viveram na Lua por cinco anos. Nasci no terceiro e, quando eles voltaram para a Terra, eu ainda era uma criança. Fui afetado e moldado fora deste planeta, por isso tenho as afeições alteradas, ou seja, diferente de outros humanos. Sou o primeiro homem a ter nascido na Lua. Até os 25 anos morei num lugar da Europa onde aprofundei os meus conhecimentos em gravidade. Comecei onde um alemão parou – no século 20, um cientista chamado Albert Einstein descobriu que a gravidade, basicamente, era a dobra no espaço. A teoria foi provada por ele mesmo e a partir dela eu busquei meu caminho. Inscrevi-me no projeto e voltei para a Lua, levei na bagagem um chip com memória de uma moça que conheci – Artificial foi o meu único amor.
O projeto durou por mais seis anos e todos os cientistas voltaram para a Terra. Resolvi ficar e provei para as agências que era preciso, eu tinha nascido ali, eu era um cidadão extraterrestre, apesar do DNA humano.
E, solitariamente, eu vivi dentro daquele vasto laboratório, não havia dias nem noites, havia estrelas e aquele planeta azul girando ora minguante, ora cheio e, às vezes, recebia uma visita dos meus pais via ondas de rádio.
O grande simulador continha toda a história da humanidade e sua memória era na Terra, mas do espaço eu interagia e vivia todas as emoções humanas.
Enternecido pelo tempo, comecei a ter medo de morrer sozinho. A Lua estava um pouco mais próxima da Terra, mas havia muito lixo no espaço e o laboratório sofria ação deste material...(mensagem final)

Oceana caminha até o refeitório da nave, ela está com água nos olhos e com a voz fragmentada. Ela diz para os companheiros de bordo: “Olhem, achei este disco e nele uma gravação antiga... É sobre um homem que nasceu e viveu na Lua em outro tempo”. Oceana vai até a janela e fica com o olhar perdido no horizonte de eventos – ela mal consegue falar sobre a antiga canção que também está na memória. A nave, suavemente, segue rumo à Terra com os restos do laboratório.




fim

O homem da lua - A gênese - conto




Ano 20 271dC

No silêncio interestelar ouvia-se apenas as batidas dos corações da tripulação que dormia há meses. A nave estava a mais de duzentos bilhões de quilômetros longe da Terra e, agora, presa pela gravidade de um planeta desconhecido, fazia um remanso com dezenas de luas. Oceana, a única acordada, perdera o controle daquele veículo gigante movido a ventos solares e cujas velas haviam se rompido. Não tinha combustível e nem comunicação, os motores deixaram de funcionar, a nave estava perdida, sem rumo e por algum tempo circundou o planeta até se chocar com uma de suas luas.
Amplo cenário de uma noite adulta, Oceana inaugura os olhos num mundo estranho, obscuro e desconcertante. Ela está viva, sozinha e os corpos dos companheiros foram para uma tumba num deserto branco e inóspito. O que sobrou da nave agora servirá de morada para ela.
Há um céu congestionado de mundos não muito distante, um grande mar de águas vermelhas onde pequenos animais e vegetais vivem em suspensão, planícies solitárias e nos pólos as florestas são azuis, como um vazio exaltado.No terreiro, uma mortalha do que sobrara da nave era onde Oceana caminhava em círculos enquanto olhava uma luz que imaginava a Terra, bela para seus olhos, um ponto na superfície sem fundo da muralha de estrelas. Respirava o espaço pesado, onde passavam os astros que brilhavam muito além da sua angústia, enquanto a profundeza das alturas em sua solidão se apoiava em noites, dias e anos a fio.Com o equipamento que sobrara na nave, Oceana precisava obter uma fonte de energia para restabelecer o computador com milhões de informações e sobreviver. Havia comida e luzes de seu equipamento pessoal. Oceana estava presa na grande lua de um planeta com um campo magnético fortemente inclinado, um gigante gasoso com anéis formados de gelo e restos de luas que se chocaram.
Aquela lua, seu novo mundo, um cais num oceano de trevas, tinha atmosfera parecida com a do planeta Terra quando era apenas um jovem de quatro bilhões de anos.A fonte de calor e luz vinha do planeta azulado, cujos anéis faziam um rio de prata que tomava conta do sul do céu diurno. As noites eram minúsculas, fabulosas e cheias de desconhecidos encantos ao Norte. Quando surgiam várias luas no céu, a paisagem mudava de comportamento e de tonalidade, eram instantes e horas de abissal solidão para Oceana, uma exobiologista e astrofísica que pilotava nave espacial, fêmea da espécie humana, nascida no planeta Terra - ano 20250 DC. - agora uma náufraga num mundo desconhecido, num sistema distante. Eva e Platão de uma nova espécie de humanos.
Assim se passaram muitos anos, num tempo sem hábito, uma extensão do mesmo tempo conhecido. Oceana se transformara numa figura ambígua sexualmente. Seus traços externos ficaram mais rudes, a inteligência aumentou e seus órgãos de reprodução sofreram mutações. Ela passou a produzir todos os hormônios normalmente. Agora não havia um homem, macho da espécie, mas Oceana tinha chegado ao limiar, antecipadamente, de uma evolução programada no DNA humano. Por algum tempo - tempo e calendário que ela mesmo criara - passou a ovular e fecundar. Foi à gênese naquele sistema planetário desconhecido. Suas filhas, seus clones e depois clones dos clones, a nova espécie de seres humanos havia rompido, perdido seus comportamentos agressivos e ritualísticos.Evoluíram para o conhecimento, criaram uma civilização anos-luz dos humanos do planeta Terra.
Tornaram-se viajantes das estrelas em suas naves zumbindo próximas à velocidade da luz.

fim

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Elas - Papel de parede


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Sírius sua irmã morta - conto


Com um lápis desenhava numa folha de papel sobre uma mesa de madeira. Os olhos captavam as rachaduras na torre da igreja e nuvens. O vento sacudia a cortina e conduzia a canção do rádio junto com o cheiro dos pães por todo o quarto, que ficava sobre a padaria. Cama de solteiro, armário abarrotado de livros; nas paredes, vários cartazes de balés e antigas fotos de família. Tinha também uma coleção de discos de Mario Lanza, amava suas canções, sobretudo “Because you’re mine” – sempre que ouvia chorava, talvez por se lembrar de um amor que nunca teve.
Sírius gostava de desenhar paisagens e caminhos íngremes, mas o sustento vinha da dança, cujo palco era o salão de baile que ficava bem na fronteira do Brasil com o Paraguai. E, nas noites de sábado, era o apogeu quando vinham homens de toda a região à procura de diversão.
No amplo salão, feito com tábuas e piso de vermelhão, aquela moça de apenas 20 anos, e mais outras tantas, contribuíam para a alegria dos rapazes. Dançavam, dançavam e giravam ao compasso de velhas canções para viver.
Sírius nasceu numa gravanha perto daqui. Era a primeira de doze, todos homens e somente ela de mulher. Ela e sua irmã gêmea, que não chegou a nascer. Sua irmã havia desaparecido por completo no sexto mês da gestação, um grande mistério para sua mãe, que vivia naquele fim de mundo. Segundo a visão instigante de Sírius, ela ainda estava ali, presente em seu corpo. Havia se atrofiado na gestação e seu minúsculo cérebro ainda vivia dentro dela. E ambas eram diferentes: sua irmã morta tinha estranhos desejos. Sírius era o contrário, e até parecia que nunca tinha desejos, ela apenas dançava e tentava compreender a vida para ambas.
Disse ela, ilustrando em detalhes, que em volta de seu tálamo, no cérebro, ficava o complexo “R” - de réptil mesmo. Este lugar era a sede da agressividade, do ritual e nasceu quando nossos ancestrais eram répteis - talvez fosse esta parte a mais desenvolvida em sua irmã morta. Logo depois, o sistema límbico - e este sim era dos mamíferos - responsável por suas manifestações de sobrevivência no planeta. Por fim, o córtex cerebral, lugar onde nasceu à civilização, a arte e a compreensão – neste lugar onde a matéria se transforma em consciência.Sírius compreendia sobre o funcionamento do cérebro humano, portanto sofria de um mal. Atribuía às atitudes e gestos grotescos em manifestações de sua irmã morta.
Sírius tinha paixão pela sua parte “R”, que dizia ter duas, e numa noite desceu aquelas escadas antigas do quarto que ficava sobre a padaria, caminhou pela praça da igreja com o vestido rodado, comprou pipocas e foi trabalhar no salão de baile.Sábado cheio de gritos de crianças, estrelas e músicas no autofalante da igreja. Sírius estava feliz, como sempre, e sua estrutura de pensamento era comum ante à vida, exceto pelo fato da menina ter desejos de réptil e coisas sem explicações. Ela trabalhou, dançou e, num determinado momento, convidou seu par para um passeio na madrugada.
As ruas já estavam desertas; no céu, por ironia, navegava a constelação de Cão Maior e a estrela Sírius. Eles andavam em passos lentos - uma no céu outra no chão. O coração de Sírius batia acelerado, era sua pulsação que levava fluidos conhecidos apenas por ela. Ruas depois, seus olhos estavam totalmente negros, já não tinha fala e a delicadeza da bailarina se transformara em gestos exaltados de desejo e fúria. E, como uma fera, ela dilacerou e comeu a genitália do jovem enquanto sentia êxtases primitivos. Gritava e olhava para o céu, feito uma fêmea selvagem e sua vítima se esvaía em sangue num corredor escuro.
O pensamento é algo complexo, composto de impulsos eletroquímicos, cujo exemplo pode ser esta história em todos os seus aspectos. Portanto, o pensamento é apenas uma das possibilidades infinitas que a mente humana é capaz de forjar. Esta intrincada maravilha, o cérebro, pulsa, palpita e segue o complexo padrão do Universo físico. Então, como seria o “tear encantado” de Sírius e sua irmã morta...?

fim




domingo, 27 de setembro de 2009

A jornada cósmica de Theopoulous Guaraná – conto




Era o primeiro dia do ano de 1.951. O porto de Santos estava lotado de pessoas que desembarcaram de um navio vindo da Turquia. Theopoulous segurava firme nas mãos de seu pai, suava e estava pálido, numa espécie de transe. Ele olhava para o alto e via a desordem das gaivotas e ouvia o emaranhado de sons que vinha das águas e das vozes humanas - de uma língua que nada entendia. Tinha apenas oito anos e, junto com os pais, deixara a Grécia, sua terra natal. A mãe morrera na longa viagem; o pai, agora, era seu elo com este mundo novo e estranho.
Uma semana depois atravessaram de trem o sul do pantanal e foram parar na cidade de Corumbá, fronteira com a Bolívia – lugar onde vivia um patrício. Pelas barrancas do rio Paraguai, pai e filho foram se ajeitando. Moravam num barco velho e rústico, que também servia de transporte para as viagens que faziam como mascates. Theopoulous e seu pai vendiam argola para laço, tecidos, chapéus, ferramentas, cordas, fumo, álcool, vidros de arnica, biscoitos e mil outras coisinhas que os nativos do litoral central consumiam. Logo eles ficaram conhecidos, desde as terras dos índios Guaicurus, guatós, até a dos Paiaguás.
Dois anos se passaram. Theopoulous e seu pai aprenderam um pouco de cada coisa, inclusive a língua portuguesa, e também a tupi-guarani. Durante as viagens, o garoto carregava no olhar uma espécie de torpor, então seus olhos engoliam a paisagem, que era formada pelo azul do céu e também pelas águas que refletiam o mesmo azul e o mato que seguia o rio. A noite tinha pérolas espalhadas no espaço e, nas águas, as luzes das estrelas se misturavam com as vegetações de camalotes – criando borrões de luzes esverdeadas.
Neste universo poderoso, que principia e se propaga, há uma eternidade de coisas acontecendo em instantes contínuos no horizonte de eventos. E, numa noite igual a estas, desceu um rude temporal e a embarcação se desmanchou nas águas do rio Paraguai. As mercadorias foram engolidas por um redemoinho que levou o resto do barco e também o pai do garoto. Theopoulous acordou muito além da fronteira do Paraguai, em terras indígenas no Chaco. Fora salvo pelos Guaicurus e levado para uma aldeia bem longe do rio, onde ele se anonimou entre crianças, cachorros e uma vida inimaginável.
 Guaraná foi o nome escolhido pra esquecer o gosto da civilização, sua cultura, costumes e o nome grego que enterrara numa curva daquele imenso rio. Foi adotado pelos últimos membros de uma nação quase extinta. E, aos dez anos de idade, ele coordenava o trabalho dos meninos da aldeia, que era aprisionar nuvens em cima do chapadão. Como uma ave aprendeu a olhar, trançava madeiras com Caranchos, gostava de Caburés, Tesourinhas, Cabeças-secas e aprendia coisas com Emas. As nuvens que os meninos aprisionavam eram torcidas e viravam água, que servia para beber no período da seca, que se prolongava por quase seis meses todos os anos. Guaraná era chamado de baquara - o que sabe das coisas, esperto – apelido dado pelos meninos Guaicurus.
Épocas de chuvas e secas vieram e foram, os meninos se tornaram rapazes, guerreiros e exímios cavaleiros. Guaraná se transformou num caçador forte de pele escura para se proteger do sol. Tinha sua própria palhoça e o respeito dos mais velhos de toda a tribo. Matava onça com zagaia, porco monteiro, cateto pegava na corrida e sobre um cavalo acertava qualquer coisa que se movesse – era um legítimo Guaicuru. Passaram-se algumas monções e Guaraná conheceu Aondê, mulher da tribo dos Paiaguás, aliados dos Guaicurus, cujos poucos remanescentes viviam numa reserva que ficava em outra região do pantanal. Um lugar pouco extenso, cercado de chapadões, com entrada natural apenas de um lado – conhecido por Covanca do índio. Bela e forte, a menina tinha apenas doze anos. Casaram-se e tiveram dois filhos. Guaraná cavaleiro e caçador Guaicuru passou a chefiar a pequena reserva Paiaguás, que ficava ao norte do pantanal sul. A aldeia era formada por velhos, crianças e cachorros. Muitas vezes faltavam alimento e água para beber, devido à seca que se arrastava por meses a fio.
Sublevado pela noite árida, Guaraná apoiou seu rosto no espaço noturno, como se na janela da própria palhoça, lugar no qual Aondê e seus filhos dormiam. Saiu cheio de estrelas, arma em punho e andou léguas por caminhos onde nunca havia passado. Precisava caçar em quantidade para alimentar toda a aldeia. O dia amanhecia, era um final de setembro, e ralas nuvens apareciam num céu pálido de horizonte avermelhado. Subitamente, um vulto felino e faminto salta sobre o cavalo que, assustado, prende a perna do caçador num tronco de árvore seca. Cavalo e cavaleiro despencam no solo árido. Já no chão, o guerreiro segura a zagaia com a ponta virada para o céu. O animal sem sorte salta sobre a lança de madeira, que lhe rasga o coração, caindo pesadamente sobre as suas duas pernas.
A onça pintada estava morta, o cavalo quebrou uma das patas e Guaraná havia quebrado os dois pés. Por mais de seis horas os três ficaram esticados ao relento daquela fornalha que derretia os horizontes. Guaraná acordou com os lábios arrebentados, os urubus faziam círculos num céu morno e vazio, seu cavalo respirava pesadamente e moscas faziam zumbidos sobre o sangue seco da onça morta. Arrastou-se até o cavalo agonizante e, num golpe certeiro, tirou-lhe o sofrimento com a mesma zagaia.
O dia terminou com rajadas de ventos que fizeram a paisagem mudar. Em pouco tempo o céu estava pesado, carregado de nuvens plúmbeas, que pareciam querer afogar aquela terra rachada e seca. Caíram gotas grossas e esparsas, as lavas-bundas e os pássaros entraram em frenesi e Guaraná se arrastou com sua dor por vários quilômetros noite adentro - como um caimã à procura de corixo. A chuva passou e na madrugada o céu estava transbordante de estrelas que brilhavam acima da sua angústia - ele se arrastava e tentava, em vão, tirar alguma força daqueles astros distantes, de modo que o firmamento se inclinasse e se confundisse com o seu árduo destino.
Então, pela primeira vez, ele se recordou da mãe que ficara numa sepultura em mar além, também das águas do Mediterrâneo e dos campos da Turquia, onde nada deu certo. Recordou da ilha de Santorini na Grécia, lugar onde nasceu e viveu por um breve período. Ao fim das lembranças veio à tona um vocabulário desconhecido naquela região e que ecoou como um lamento, até que os primeiros raios da manhã atravessaram seu corpo, descumprindo regras e normas da natureza.
Guaraná parecia ter acordado de um transe ou sonho noturno. Estava diante de uma enorme cidade, feita de barro e bosta, onde moravam milhões de cupins. Nas sombras daqueles morros, seu corpo cansado e sem forças adormece pesadamente. A chuva cai novamente em abundância por todo o dia e noite. Na alvorada, Guaraná consegue aplacar a dor física: aumentara a sensibilidade, mas perdera os movimentos do corpo, que se encontrava envolto numa manta de lama fabricada pelas operárias dos cupins; seus ouvidos captavam a radiação cósmica de fundo e ondas eletromagnéticas. O coração ficara rengo e havia um gosto de metal na sua boca, por onde cupins entravam e saíam.
Era aurora, úmida angustiante, bela, cheia de luzes nos formigueiros e o cérebro daquele homem entrara em colapso. Theopoulous Guaraná sabia que seu universo era finito até ali, como ser humano, mas sem limites no tempo imaginário. Uma bola de fogo ficou suspensa a meio metro do chão. Do seu corpo separaram-se os átomos, cujos núcleos se decompuseram em dois, liberando energia. Isso também ocorreu com um inseto, era uma fissão nuclear em andamento, que culminou com uma fusão nuclear espetacular, na qual uma estranha e forte força mantinha unidos os novos átomos. Um pouco antes do amanhecer, aquela energia virara um cupim com asas na fase adulta, pronto para criar uma nova colônia.
O homem grego se transformara em cupim, seu pequeno cérebro não compreendia nada, a visão era ampliada e deturpada, os sons eram só zumbidos e o pantanal era um planeta distante que seus olhos tentavam decifrar. Leve e sem rosto, perdera o compasso voando sem rumo para cima e para baixo. Depois pousou sobre um formigueiro e ali ficou imaginando o que seria aquela infinita curvatura de impassibilidade! Terminava naquele instante a lógica de suas conjecturas humanas. No quinto dia, Aondê e seus filhos alcançaram aquela cidade de cupins, que voavam loucamente por todo o vale. Nem vestígios do marido foram encontrados. A mulher segurou nas mãos dos meninos, sentaram-se sobre uma pedra e ficaram até o anoitecer olhando os tamanduás devorarem os cupins com asas, num banquete alucinado.

fim

Guaicuru – tribo indígena que vivia no estado de Mato Grosso e também no Paraguai. Eram exímios cavaleiros e guerreiros. Os Guaicurus eram aliados aos Paiaguás contra os portugueses, eles ofereceram grande resistência à povoação do Pantanal mato-grossense. Um tratado de paz em 1791 os declara súditos da coroa portuguesa. A partir do século XVIII, chamou-se guaicuru todo os indígenas do Chaco que compartilhavam sua língua.

Paiaguás hoje extinto, vivia no Pantanal quando os portugueses chegaram na região. Juntos com os Guaicurus travaram batalhas, matando muitos portugueses. Foram perseguidos e aos poucos exterminados, não existindo atualmente nenhum registro de descendentes.

Zagaia - uma arma feita com madeira. Espécie de lança usada para escorar onça.

Fissão nuclear - quando um núcleo se decompõe em dois ou mais núcleos menores, liberando energia.

Fusão nuclear - Quando dois núcleos se colidem para formar um núcleo maior e mais pesado.

Força forte - Mantém os quarks unidos para formar prótons e nêutrons – estas formam o núcleo atômico.

Radiação cósmica de fundo – luz emitida quando o Universo era apenas um bebe. Surge como microondas e captadas como zumbidos.(pode ser captada na televisão).

Ondas eletromagnéticas - Oscilações num campo elétrico por ondas que viajam na velocidade da luz. – ultravioleta, luz branca, ondas de rádio e raio x .

Lava-bunda - libélula

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Matança de porcos - conto


Sob o sol vermelho e ardente, as folhas das árvores ficaram azuis. Havia um túnel formado por mangueiras, cujos frutos alimentavam os cardumes de baleias que voavam rumo aos mares do norte. A terra tinha aparência do chão do planeta Vênus, vermelho e sépia. Adiante do matadouro, numa das extremidades das mangueiras, havia um grande rio que levava o sangue dos porcos abatidos. Ao lado, um enorme bosque onde moravam Corah e sua família.O abatedouro de porcos alimentava a população daquele lugar, onde as perspectivas familiares de espaço e tempo eram estranhas. Tudo escapava às regras, inclusive a luz, que viajava a uma velocidade de 80 quilômetros por hora, fugindo a uma lei natural que é de 300 mil quilômetros por segundo. Então, o tempo também caminhava lento e todos os relógios eram muito vagarosos. As bicicletas eram os veículos mais rápidos e a velocidade dependia de cada um. Na ampla casa de pedra onde Corah vivia com os pais havia inúmeros relógios mecânicos, biológicos e estacionários.Ela estudava no vilarejo, onde a população não passava de cinco mil pessoas. A região era belíssima, e quando chegava o outono os campos ficavam com um azul profundo, que parecia líquido. E todas as tardes, ante à revoada de baleias, ouvia-se um coro de gritos que ecoava por aquele descomunal céu em rosa: eram os porcos sendo mortos.
Olhos amendoados, sobrancelhas intensas que combinavam com o carmim da boca grossa e nariz imponente. Corah nascera em dezembro e quando chegou aos 12 ganhou uma bicicleta toda violeta e rosa. A estrada entre sua casa e a escola era feita de pedras escuras, lisas e as voltas do vilarejo seriam muito mais rápidas e prazerosas.Assim, numa manhã, quando voltava da aula, a menina pedalou o mais rápido que pôde. Foi na descida perto da ponte que ela chegou muito próxima da velocidade da luz naquele lugar. Como o tempo é mais lento próximo à velocidade da luz, Corah experimentou a relatividade especial - descobriu que suas partículas atômicas não envelheciam em tal velocidade.Em cinco minutos a estrada virou um buraco de minhoca, um túnel, ela chegou em casa e o lugar já não era o mesmo. As paredes de pedras foram substituídas por tijolos e madeiras. Havia vários vizinhos e crianças por todos os lados. Ela entrou normalmente em casa. Sua mãe preparava o almoço de rotina para o pai, que estava no matadouro de porcos. Agora, na casa, havia um outro quarto que era de Samuel, o irmão que até cinco minutos atrás não existia. Corah caminhou pela casa, descobriu que o tempo havia passado e ela não envelhecera. Mas as folhas estavam amarelando, ainda se ouvia os gritos dos porcos morrendo e as baleias se confinaram em mares profundos.A menina de pernas longas ficou extasiada pelas leis naturais do Universo e resolveu estudar sobre as partículas atômicas e suas vidas diante de paradoxos como este. E numa outra manhã, de volta para casa, Corah e Samuel desceram juntos numa mesma bicicleta e se depararam novamente com a dilatação do tempo. Em cinco minutos a estrada já estava pavimentada, o bosque havia desaparecido, assim como o rio e o túnel de mangueiras. A cidade havia aumentado, o céu já não era mais vermelho, rosa e sim azul claro, onde aves e nuvens voavam. As folhas ficaram verdes, o matadouro de porcos dobrou suas dimensões e ganhou uma chaminé, que chegava nas nuvens.
Corah e o irmão vagaram pelo apartamento vazio e repleto de conforto. Seus pais haviam morrido há muitos anos. Em cinco minutos eles mudaram suas vidas para sempre.Mesmo assim, o tempo passou e eles continuaram a viver naquele lugar extraordinário, como duas crianças que eram e que enganavam o tempo.
“A relatividade especial é uma lei natural, que nos alenta o sonho de viajar para as estrelas...”, gritou Corah, diante da sala de aula lotada de adultos. Era um outro tempo e a menina de apenas 12 anos costurava o espaço e o tempo fazendo um enorme lençol bordado com estrelas, sonhos e possibilidades. O que aquelas crianças não sabiam é que as implacáveis forças da natureza eram indiferentes para sonhos e anseios de criaturas como elas.
E nas pedaladas dos irmãos Corah e Samuel, o futuro chegou em novos 5 minutos, invadindo os campos de ruas e estradas, cercas, edifícios e gente. Foi um horror, porque com o futuro chegou a destruição e o previsto fim. Passaram-se alguns milhões de anos.O Sol estava inchando, morrendo, já havia engolido Mercúrio, Vênus e cobria o céu da Terra – uma estrela nos últimos estertores, uma gigante vermelha.
Naquela manhã modorrenta, quando eles chegaram, o céu se abriu deixando a atmosfera escapar para o espaço, os oceanos que cobriam a Terra se evaporaram e o planeta foi vorazmente engolido por sua estrela, que outrora havia lhe dado todas as vidas. E, como aqueles porcos diante do medo, eles gritaram, todos gritaram e seus gritos esvaíram-se para o vazio. Porém, não havia mais ninguém para ouvi-los.A luz voltou a sua rotina e velocidade. Um monstro, um buraco negro de proporções gigantescas transformou tudo em energia. No lugar onde viveu o Sol e seus filhos sobraram uma mortalha de gases e restos de mundos que vagariam pela escuridão. Átomos de carbono que também chegarão à estrela, um dia, num outro lugar do Universo. Uma supernova fênix.

fim

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

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domingo, 20 de setembro de 2009

Os corvos crocitam na noite - conto



Em meio ao brilho do cetim, da seda e dos vapores de arroz surge um rosto, exuberante, cuja cor carmim e lápis preto acentuam a simetria da face e os olhos, já rasgados de si, como dois peixinhos que se estendem até a fronte. Com gestos, olhares e movimentos sinuosos ela cambaleia e canta - o último ato da ópera chinesa. Os tambores fazem dueto com seu coração, que cede à ponta de uma flecha... O vermelho quase bordô do sangue tinge o cetim cor de pérola. As notas dos violinos e do Huquin soam como um lamento, como folhas mortas que caem ou vidas que se findam. O tempo suspende seu vôo, a cortina desce e o público se levanta enquanto aplaude por alguns segundos. Na platéia, com olhar e coração em êxtase, ele aplaudia pela décima vez aquele espetáculo de extravagância, paixão e dor. Ninguém compreenderia a alegria que transbordava daqueles olhos - talvez ela tivesse cantado somente para ele naquela noite.
Há um céu e uma outra terra na mente de cada homem, como também na mente de Cortazar havia um céu onde corriam nuvens baixas de chumbo e uma terra que deixara na infância.Ele saiu do teatro com a mesma serenidade nos olhos, apaixonado pela atriz da ópera chinesa e, vestido com um terno preto de linho, prostrou-se em frente a uma pastelaria numa esquina da Avenida da Liberdade. Por horas a fio esperou aquela moça de olhos amendoados, pele clara como porcelana, gestos sutis de infinita beleza - ela tinha estatura de boneca e coração em desatino. Peônia tinha nascido na China, província de Henan. Seu nome de batismo era Bian Wu, homenagem ao pai, que também tinha esse nome. O senhor Wu se estabeleceu com um pequeno comércio de pastel na Rua Barão de Itapetininga e, por razões desconhecidas, deixara de falar com sua filha Peônia.O vento encanado da noite na avenida trouxe um perfume de peônias, atemporal, que fez o coração de Cortazar bater mais forte - eis um instante de simetria neste fotograma cósmico.A menina sem a máscara e vestes do espetáculo chegou com uma rosa na mão. Naquele encontro, um espinho feriu o dedo de Peônia. Seu sangue correu na rosa branca, que se tornou vermelha. Havia barulhos de alguns carros e do coração de Cortazar, que tentava saltar do peito como um galope enlouquecido. Os seus olhares se tocaram profundamente, então, não se ouvia mais nem um ruído - o sangue parou, havia nuvens calmas sobre São Paulo na madrugada. Peônia tropeçou com as palavras, mas cantou com a alma e sua doce voz era levada por entre os edifícios que dormiam. Cortazar respondeu com versos, que se perdiam nas avenidas. E, assim, eles dançaram “tangos de los exilados”, que estava na cabeça de Cortazar até o limite do amanhecer.
Passaram-se quatro outonos e o amor entre Cortazar e Peônia tinha chegado ao céu, e podia ser colado num paredão de estrelas pela eternidade. Eles eram felizes como deviam ser. Cortazar nunca se abalou pelo fato de Peônia ser Bian Wu, um homem de rara beleza, alma feminina e seu único amor neste mundo.Cortazar era um grande cozinheiro, um chef com raras qualidades, que colocava especiarias em todos os sentidos. Sua amada deixou os palcos e criou um palco em seu quarto, onde fazia trechos de óperas da sua terra natal para o amado.
Da janela do apartamento no segundo andar, onde viviam, na Rua Barão de Limeira, podia-se avistar pessegueiros e isso recordava o coração de Peônia, que lembrava a infância que teve em Henan, na China. No velho edifício em frente havia uma família de corvos que, de tempos em tempos, aportava sobre os pessegueiros. Cortazar cozinhava para Peônia e ambos se amavam pelo centro velho da cidade, pelas praças ouviam histórias da boca-do-lixo, pelas calçadas da Rua Barão de Itapetininga, da Sete de Abril e das galerias eles se fundiam em momentos sublimes de um amor contagioso.
Passaram-se muitos e muitos outros outonos. Não havia mais nada neste mundo que pudesse ao menos abalar as vidas de Cortazar e Peônia, exceto a morte. As ruas estavam agitadas, calçadas repletas, a cidade se expandia, o céu sempre carregado e até a antiga garoa havia desaparecido. Somente aquela família de corvos mantinha-se sobre os pessegueiros – agora, alguns galhos secos no quintal de um depósito abandonado.
Nuvens de poluição vagavam sobre os edifícios da cidade. Os corvos voltaram aos seus ninhos e crocitavam sobre os prédios vagos. Por de trás da cortina de cetim azulada, uma mulher se pintava ante um espelho, seu rosto era a máscara de uma antiga ópera da região em que nascera. Subitamente, deixou o lápis percorrer a face: profundamente melancólica, pensou em Cortazar, que ainda não havia chegado. E, sozinha no quarto, deixou cair uma chuva de lágrimas. Peônia levantou-se, colocou o quimono vermelho com flores de cerejas, os pés descalços alvos e pequenos desceram as escadas, seguindo rumo ao centro da cidade. Caminhou pela Avenida Barão de Limeira até a Praça da República, Teatro Municipal e Praça das Bandeiras, onde foi vista pela última vez.
Nossa vida neste mundo é apenas um sonho, pensava, em voz alta, Cortazar. Ele caminhou sem rumo pela casa vazia e seu coração em turbulência estava angustiado, como os corvos que crocitavam sobre os galhos retorcidos dos pessegueiros. Por alguns instantes ele relembrou, colocou a música daquela noite em que amou Peônia para sempre. Foi até a janela dos pessegueiros, gritou com os corvos e enxergou a lua que caminhava no chão, refletida pelas asas das baratas que andavam pelo quintal na madrugada. Num ato de extremo desespero, loucura e fúria, ele rompeu com a própria vida, tal qual Van Gogh diante daqueles corvos.
Passaram-se mil outonos, o musgo cresceu pelas paredes do lugar onde moravam. No terreiro dos antigos pessegueiros havia um edifício moderno e os corvos também desapareceram. Moradores mais velhos da rua contam que sempre aparece uma velha chinesa descalça, com uma cabeleira trágica e vestida com um quimono vermelho com flores de cerejas. Ela caminha pela Rua Barão de Limeira até a Praça dos Emigrantes – onde os portugueses costumavam se encontrar. Depois, retorna pela mesma avenida até o antigo prédio do jornal Folha de S. Paulo, onde passa o resto do dia. À noite, ela se esconde no velho edifício onde moravam Cortazar e Peônia, lá no fim da rua...

fim