Sou um jornalista, um repórter e um homem que acredita em Deus. Passei a vida procurando explicações para a fé, o medo e a alma. Encontrei muitas, metade delas não entendi; inferi a entrevista que fiz com um homem que bebia vinho fazendo estalido na língua ao final de cada gole e se dizia chamar José Caifás.
Uma leitegada de exemplares minúsculos cruzou minha frente. O céu estava úmido, com algumas nuvens roxas e marrecos-de-pequim sobrevoando o açude. O loft, cuja porta principal era uma almadia, ficava logo atrás da espessa vegetação de socotras, lugar onde ele vivia.
- Ninguém era início de nada!, gritou o homem que eu procurava. Era manhã e ele passeava pela estapafúrdia floresta. Vestia um sarongue que cobria todo o corpo, cabelos curtos, barba azulada, os olhos estavam amarelados iguais aos dentes.
No interior de sua casa pude observar que a parte frontal era de um vidro blindado de cor cinza. Usava madeiras e pedras nos pilares, que foram cobertos por minúsculas vegetações. Tinha muitos quadros pintados a óleo, instrumentos musicais e um milhão de livros. Ele falava muito e caminhava com as mãos para trás. Eu fiquei sentado numa confortável poltrona e bebi chá de rosa mosqueta, com raspas de tangerina e limão.
A luz da manhã recortou imagens das socotras, as sombras avançaram e adentraram a casa, criando reflexos consonantes. Uma cacofonia de passado e presente. Caifás abriu uma garrafa de vinho, contou que sofria de geofagia e tinha o vício de fazer enteroclisma com infusão de flores e folhas de beladona.
- Naqueles dias, o Império Romano como uma sombra avançava onde o mundo e todo seu séquito soçobravam. Foi quando esqueci quem eu era, esqueci também de onde vim e porque estava na Palestina dominada. Recordo que tinha a glória e o poder de subjugar os iguais. De sacerdote ao sumo do Império, um judeu que bebia vinhos na casa de Pilatos. Falou em tom de tristeza, o homem.
- Você é aquele Caifás, Joseph Caifás, da bíblia? Conheço muito pouco da sua história...
- Sou Caifás, o único, e não quero provar nada para o mundo. Apenas quero deixar explicados os motivos que me fizeram comprar o corpo daquele homem há dois mil anos.
- O homem que você julgou e condenou à morte era Jesus Cristo!? Acreditei nele e a sua fala branda, o olhar dante era estanque sobre mim. Ele continuou a relatar, bebia vinho, água e caminhava em círculos a minha volta, deixando rastros de perfume suave de flores.
- Vi a eternidade numa noite entrante, havia música, vinhos e um alarido das vozes dos Fariseus embriagados. Aos meus pés, o homem ficou amarrado por toda a noite. Eu sabia quem era aquela criatura de olhos escuros, cabelos emaranhados, pele queimada pelo calor do deserto e com semblante de angústia. Era um viajante como eu, um patrício por mim julgado e atirado de volta para um oceano de escuridão. Eu tinha bebido muito, ouvia as horas como marretadas na minha cabeça e, na lassidão noturna, sobrepus a lucidez e a razão e fui injusto com as pessoas daqueles dias e com a vida daquele homem – dizendo isso, parou em minha frente, despejou toda a garrafa do vinho numa grande taça de cobre que tinha cheiro de zinabre e disse: “Que morra um só pelo povo e não pereça uma nação inteira.”
- Era assim que eu pensava, jornalista, somos criaturas políticas... Esse é o meu pecado ante o pecado do mundo moderno, que foi forjado em uma metáfora.
Eu não compreendia quase nada, mas sabia que ele estava contando verdades absolutas que a minha mente não decodificava. Intrigado, levantei-me e pedi vinho. Ele abriu duas outras garrafas. Tive sapituca e meu coração entrou num ritmo acelerado; tinha secura na boca e bebia gole sobre gole, degustava e sentia sensações inebriantes que vinham de alguns frutos alegres. Um vento soprou alertando as horas que corriam. Embriagado, numa espécie de êxtase nunca experimentado pelo meu corpo, sentei-me novamente. A voz aguda daquele homem viajou pelos meus sentidos alterados. A comedoria chegou a ponto. Porco, saladas e mais vinhos. Caifás inflectiu para o mundo dos primitivos, eu também...
Ao laré, saímos por entre as socotras e a tarde tinha cheiro e cor de vinho nos horizontes. Caminhamos por uma pequena plantação de beladona que ele cultivava.
- Como é doce ter sonhos extraterrestres! (imaginei ter pronunciado esta frase). Que vegetação abstrata, quem é você realmente, vivendo aqui nesta região do Crato cearense?
- Sou Caifás, o único! Estou aqui na Terra por mais de dois mil anos e nunca tive a intenção de enganar o tempo. Apenas fui julgado por algumas leis da física, das quais me beneficio sem muita ilusão, um castigo com certeza. Descobri, aqui neste tempo, a exuberância da nossa existência longe da magia e onde leis naturais governam. Talvez eu até esteja morto em brana ou pregado numa cruz quântica pela quarta dimensão, talvez!
Caminhávamos. Ele narrava as coisas com vareios no olhar e com palavras tiradas do engonço e que tinham centenas de sentidos e rumos. Voltei a indagar sobre o homem que foi crucificado e morto, ajudado por ele, Caifás, autodenominado “o único”.
- Quando cheguei ao seu tempo, equilibrei minha sanidade caminhando sobre a terra com os pés nus. Vaguei por oito ou nove anos pela Europa, a Ásia e a África. Há dois anos moro aqui. O tempo está me deteriorando, sinto que morrerei em breve como qualquer coisa viva. Jesus Cristo era um rapsodo, um vendedor ambulante de sonhos e um grande pregador, mas naqueles dias o mundo era relativo às suas coisas e o conhecimento restrito; fez de um homem normal, uma criatura divina.
- Como assim? Então ele era um homem comum, como eu e você? Parei os passos, Caifás continuou a andar. O chão estava rodando e a tarde adormecia, entorpecida e quieta, acalorada, e eu ainda estava embriagado pelo vinho. Ele continuou a falar, eu ouvia ao longe.
- Isso mesmo, jornalista! Comprei o corpo de Jesus, o sepultei na eternidade e cobri com o barro. Foi um ato isolado de minha parte. Eu acreditava em milagres e mágicas, como todas as pessoas daqueles dias. Porém, depois disso, aconteceram coisas extraordinárias com as quais se moldaria a nossa civilização. Em meu ponto de vista foi um mal entendido, mas olhando pela humanidade foi um “bem entendido”!
- Jesus Cristo! (pensei ter gritado baixinho). Voltamos a andar lada a lado. Olhei por entre os galhos de uma árvore de socotra e vi num fiapo do céu a lua e a estrela da tarde; também estavam lado a lado. Caifás tinha vontade de narrar e continuou a falar até a noite mudar o tom da sua voz.
- Intrigado, jornalista? Antes de partir, devo resolver este teorema que sua mente montou. Vá amanhã pela manhã!
As luzes do jardim se acenderam e ele sorriu pela primeira vez. Já estávamos sóbrios como os grilos perfurando a noite.
- Se você viveu naqueles dias, como explicaria sua presença aqui neste tempo e agora?
- Foi como uma espécie de castigo exaltado para mim, a morte daquele homem. Aconteceu antes dos próprios inimigos, os romanos, terem aderido à idéia do cristianismo. Depois de terem crucificado seu líder por sedição contra Roma, inventaram uma religião. Eu não presencie tais acontecimentos; quando cheguei neste tempo, estava tudo diferente, calendário mudado. Eu pensei ter viajado para outro mundo, um céu de enigma para minha alma, até estes dias.
Ele parou e meditou por alguns segundos, como se quisesse lembrar-se de mais coisas.
- Todos estes fatos ocorreram ao longo de dois mil anos. Eu cheguei neste tempo há onze anos; antes disso, recordo da noite em que fui dormir com minha esposa... Ao acordar, imaginei estar sonhando ou bêbado. Não era minha cama e nem o meu quarto. Era um lugar pequeno, com janelas redondas e transparentes, mesa e bancos esculpidos com metal; lembro também da luz calma e de um zumbido que escuto até hoje, agora, por exemplo, ouço o...
Voltamos para o interior da casa e todas as luzes acesas criaram um brilho de vidro. Caifás voltou a beber vinho e continuou a falar sobre sua absurda história.
- E no interior daquele objeto ou máquina passei algum tempo, não saberia responder quanto. Dormia, acordava e mal conseguia andar, minhas pernas não se moviam e meu corpo pesava muito. Tinha comida e por isso não era um sonho. Poderia ser a estrada para o paraíso, segundo aquele homem que julguei por blasfemar nadas. Mas com certeza não era o caminho para o paraíso, e, sim, uma noite eterna! Eu tive movimentos convulsivos por uma grande extensão de tempo e agonia paralela ao voltar para o mundo de areias e pedras. Acordei no meio do deserto, sozinho com as mesmas vestimentas. Caminhei vários dias, ou horas. Enquanto andava pensava que tinha morrido e minha alma já estava no inferno. E, ao me deparar com uma civilização moderna, fiquei atônito, mas fui buscar uma luz. Estudei, caminhei, aprendi muitas línguas e formulei uma conjectura sobre minha estada neste tempo, que para meu entender era o futuro...
- Pelo que compreendi você viajou no tempo, veio do passado?
- De certa natureza sim e não! Depois de conhecer a matemática, a física e suas leis, deduzi que fiquei numa espécie de “suspensão no tempo”, preso num objeto cilíndrico e cuja velocidade deveria ser próxima à velocidade da luz, porque o tempo esteve quase parado. Concluí que seria no espaço e bem provável que tenha arrastado este espaço em círculos próximos à Terra. Ao descer novamente no planeta o tempo havia passado, se arrastado normalmente como você vê, dois mil anos, passo a passo, guerras, fomes, alegrias, descobertas e os primórdios de uma civilização. Tornei-me um cidadão, gosto de aprender e meu entendimento profundo das coisas como eram e como são peguei neste tempo e não no meu tempo, sem almas. Mas o tempo me pegou, estou envelhecendo muito rápido.
O calor me fez suar. Caifás sentou-se a minha frente. Mesa posta, taças com vinho e comidas.
- O senhor poderia ser apenas um louco com conhecimento!
- Já pensei nisso! E respondi a mim mesmo, não importa. O meu desvelo trouxe à tona mostras ilusórias do que realmente somos e também porque somos assim... Procuramos equações que expliquem nossa origem e a nossa existência. E foi no limiar, no amanhecer da humanidade que nasceram o dogma e a religião, como uma equação. Eu estava lá naqueles dias, conheço os passos. Depois, a humanidade parou no tempo; enquanto evoluía se apegou ao passado cultivando rituais e esquecendo que a ciência é o único caminho que poderia levar a Deus, e eu ainda estou vivendo e tentando decifrar sua grande e fantástica mente. Se enxergarmos assim, só pode ser assim!
Caifás bebeu um gole do vinho, fez um estalo na ponta da língua e sorriu mais uma vez.
Comemos e bebemos por quase toda a noite. Eu tive espasmos de felicidade. Nos embriagamos, enquanto eu tentava criar imagens da mente de Deus, dita por Caifás. Eu enxergava nadas, depois luzes em alta velocidade, que se afastavam até formarem galáxias que eram os neurônios ao longe e no meio da massa escura.
Caminhamos sóbrios sobre o jardim de pedras. As nuvens roxas corriam baixas, anunciavam chuvas para aquela manhã. Eu estava indo embora e ele me acompanhou até a porteira da entrada no açude. Os marrecos-de-pequim decolaram em nossa frente. Caifás ficou parado. Segui até o alto da estrada, onde estacionei o carro e olhei para trás. Ao fundo, aquelas árvores de socotras, a casa cuja porta era um barco entre as pedras e a vegetação rara. A estrada serpenteia pela terra. Uma centena de pequenos leitões rosados me seguia. Caifás acenou.
Fim