Sentado no alto do edifício da Galeria São José, Polux tentava entender a visão que tinha sobre os horizontes em constante sépia avermelhado. Era uma librina de grãos de terra suspensos, formando uma grande redoma de poeira, uma paisagem que ecoava tempos primitivos da Terra e, logo abaixo, a cidade cindida entre córregos, cerrados e um agosto que terminava no finalzinho de outubro. Às vezes, Campo Grande parecia um barco à vela assustado e naufragando sob estrelas gargalhantes do hemisfério sul.
Pensava Polux: o tempo é irreparável, nasci na extremidade errada dele e tenho que viver detrás pra diante...
Pensava Polux: o tempo é irreparável, nasci na extremidade errada dele e tenho que viver detrás pra diante...
Os gêmeos nasceram num outono de ventania, sob um céu absurdo e na parte nodosa do dia. A mãe vivia sozinha sobre a margem terrosa e áspera do rio Inhanduí-Guaçu. Maria era uma mulher singular, de muitos amores e pouca idade. Casou-se com dezoito anos e logo ficou grávida. Numa manhã de nuvens baixas, Maria lavava roupa à margem esquerda do rio, cantava com águas bebendo da vida lentamente quando chegou para degustação um homem purificado de natureza bravia e que dizia palavras com amplos sentidos. Era um ser metafórico, que pescava naquele rio e seduziu a moça com precisão e paixão. Irrompendo com a ordem natural dos acontecimentos Maria teve dois filhos, cada um de um pai e ao mesmo tempo. Múcio, seu marido, pai de Castor e progenitor de Polux, fazia um trio musical com paraguaios - tocava harpa na churrascaria “Lá carreta”- ficou profundamente abalado com a situação, triste e foi embora para o Paraguai.
E nas sendas do cerrado, onde mangueiras espionam sobre muros, os meninos cresceram juntos. Se amavam como irmãos e conheciam igualmente as razões inconsoláveis de todos os prantos. Artistas de corpo e alma, de mambembes espetáculos pelas calçadas e praças da cidade, os gêmeos sobreviviam desta arte. Polux morava no Grande Hotel Gaspar, tinha gosto por vinhos e charretes – vagava pela cidade de sul a leste.
Na diurna exultação, o quarto de luz amputada pela cortina; no segundo andar do hotel, um bem-te-vi bate o bico contra a vidraça, xícara e restos de alimento sobre a mesa, onde sombras distorcidas de formigas rondam em procissão. Sonolento, Polux se levanta e sua rotina, antes do irmão chegar, era contemplar pela janela do quarto a estação ferroviária, chegadas, partidas e algo miraculoso nas manhãs alaranjadas, onde pássaros explodiam em sons pela esplanada.
Castor morava distante do centro da cidade e no meio de um guaviral; tinha oito filhos com a mesma mulher, que se chamava Maria como sua mãe. A família tirava mel das flores de mirtáceas através das abelhas que cultivavam. Qualquer grande esperança é grande engano - pensava Castor - somos peregrinos de uma existência absurda de agonia e lágrimas sem sentido ou glória!
À noite, velas soltam lágrimas aprisionando mariposas no escuro crespusculado dos grilos e, na alvorada do dia, nuvens calmas e aves se reúnem sobre aquele nicho de homens, formigas, bocaiúvas, araticuns e um fogão de lenha recém-aceso. Era quando Castor tinha surto de imaginação ante ao bule de café. Assistia uma gota de orvalho se equilibrando na haste da bananeira, o gato afiando as garras, os filhos dormindo e o mundo girando. Indignação extinta, ressaca vaga, vinho, remorso e um desejo exaltado de pensar forte e de nunca morrer. Castor era ave noturna, abria as auroras e fechava as escuridões, sabia que sua herança era canga pesada, criar os filhos e viver como um mortal. Costumeiramente, encilhava o cavalo para a charrete e seguia em troteada para o centro da cidade onde encontrava com o irmão Polux em frente da Estação Ferroviária. Semeadores enlevados de harmonia, além das paixões terrenais, tinham encanto de deuses gregos que ficou gravado num fotograma no céu noturno de gêmeos.
Polux balançava as pernas sobre os dez andares do edifício da galeria São José, tinha presságios enquanto assistia nuvens lutulentas que pairavam sobre a profusão de pessoas que se aglomeravam ao longo da Rua 14 de julho até o relógio central. Castor organizava o povo que olhava o relógio e cobrava em coro a decisão de Polux saltar. – Salta! Salta! Salta!
Saltou sem se benzer, por entre aplausos e emoções... Desceu os dez andares num silêncio de quem já morreu. Bateu na calçada e, por alguns segundos, ficou inerte, parecia que a vida tinha se apagado mas, de repente, ele se mexeu, sorriu, levantou, sacudiu a poeira e o aplauso em volta muito mais cresceu. Polux e Castor passaram o chapéu recolhendo o dinheiro que a platéia deu. Depois, seguiram abraçados, como sempre, rumo à Praça Ary Coelho, onde a charrete ficava estacionada.
Saltou sem se benzer, por entre aplausos e emoções... Desceu os dez andares num silêncio de quem já morreu. Bateu na calçada e, por alguns segundos, ficou inerte, parecia que a vida tinha se apagado mas, de repente, ele se mexeu, sorriu, levantou, sacudiu a poeira e o aplauso em volta muito mais cresceu. Polux e Castor passaram o chapéu recolhendo o dinheiro que a platéia deu. Depois, seguiram abraçados, como sempre, rumo à Praça Ary Coelho, onde a charrete ficava estacionada.
fim





















